A Geração Z lidera o uso de inteligência artificial como ferramenta de aprendizado profissional, mas uma pesquisa recente sugere que essa adoção desenfreada pode mascarar uma lacuna significativa: a dificuldade em aplicar o conhecimento adquirido na prática. Embora chatbots e outras ferramentas de IA ofereçam acesso rápido a informações, explicações e até mesmo simulações, a transição do aprendizado teórico para a execução eficaz no ambiente de trabalho ainda é um desafio, especialmente para os mais jovens.

Uma pesquisa divulgada pela plataforma de aprendizado de idiomas Preply, que ouviu mais de 5.000 profissionais em nove países, indicou que 92% dos respondentes da Geração Z utilizaram IA para desenvolver habilidades relacionadas à carreira no último ano. No entanto, mais da metade (57%) relatou ter dificuldade em colocar em prática o que aprenderam com chatbots. Em comparação, apenas 40% dos profissionais da Geração X expressaram a mesma dificuldade. Esse descompasso levanta preocupações para empregadores sobre o desenvolvimento real de competências utilizáveis no dia a dia corporativo e o tipo de suporte necessário para superar essa barreira.

O paradoxo do aprendizado digital

O estudo da Preply aponta para um paradoxo no aprendizado moderno. Por um lado, o acesso a ferramentas de IA democratizou o acesso ao conhecimento e à prática, permitindo que profissionais busquem informações e simulações de forma inédita. Todd Hughes, que treina tutores de idiomas na Rosetta Stone, exemplifica como o ChatGPT pode gerar textos de leitura personalizados em sueco, facilitando a prática sem a necessidade de buscar materiais adequados. Essa facilidade, contudo, não se traduz automaticamente em uma sensação de progresso ou absorção efetiva do conteúdo. Quase três quartos (71%) dos jovens da Geração Z sentiram que estavam ocupados aprendendo sem, de fato, melhorar, ante 56% da Geração X. Isso sugere que a quantidade de tempo dedicada ao aprendizado, impulsionada pela tecnologia, não garante resultados proporcionais.

Josh Crossick, Chief Product Officer da Preply, descreve o aprendizado como um processo multifacetado que vai além da simples aquisição de conhecimento. Ele envolve prática, feedback e a construção gradual de confiança. Embora a IA seja uma ferramenta poderosa de suporte nessa jornada, ela representa apenas uma parte dela. A dificuldade em aplicar o conhecimento pode advir da falta de compreensão conceitual profunda, como no exemplo de uma fórmula de Excel copiada sem entender sua lógica subjacente. Quando questionados sobre a capacidade de adaptar ou explicar o cálculo, esses profissionais se veem em apuros, evidenciando a necessidade de um entendimento mais robusto do que a simples execução de um comando.

A insubstituível interação humana

A pesquisa, que não atribui exclusivamente a IA como causa das dificuldades, mas investiga a aplicação de aprendizados de diversas fontes, destaca a importância da interação humana. Em um ambiente de trabalho, colegas podem oferecer contexto sobre como uma tarefa é realizada, questionar premissas e fornecer feedback baseado na performance real. Um chatbot, por mais avançado que seja, não consegue "ler a sala" nem captar as nuances de uma conversa em tempo real. Iain Smith, chefe de ciência comportamental na Sunny Workplace, observa que novos funcionários podem perder oportunidades de aprendizado informal em ambientes onde a comunicação é predominantemente digital, deixando de aprender "atalhos, truques e pequenos jeitos de lidar com um dia estressante" com colegas mais experientes.

Apratim Purakayastha, anteriormente gerente geral de soluções de desenvolvimento de talentos na Skillsoft, já havia alertado que ferramentas de prática com IA têm limites e "não substituem o coaching". Crossick reforça essa visão com sua experiência aprendendo espanhol, onde a prática de conversas com um tutor, incluindo cenários do dia a dia como levar os filhos ao médico, foi crucial. O receio de cometer erros em uma interação humana, e a necessidade de trabalhar através deles, constrói uma confiança que a prática com uma máquina, por vezes, não consegue replicar. A interação humana oferece um elemento de risco calculado que impulsiona o aprendizado e a confiança de forma mais profunda.

Implicações para o futuro do trabalho

Para as empresas que investem em tecnologias de IA para o desenvolvimento de seus colaboradores, a mensagem é clara: a tecnologia é uma ferramenta, não uma solução completa. A lacuna entre o aprendizado e a aplicação prática sugere que o investimento em IA deve ser complementado por estratégias que reforcem o desenvolvimento de habilidades interpessoais e de pensamento crítico. O feedback contínuo, o coaching e a mentoria por parte de colegas mais experientes continuam sendo elementos indispensáveis para garantir que o conhecimento adquirido se transforme em competência real e aplicável.

Ainda que a Geração Z demonstre uma afinidade notável com ferramentas digitais, a pesquisa da Preply serve como um lembrete de que o elemento humano no aprendizado e no desenvolvimento profissional permanece insubstituível. A capacidade de um colega experiente em guiar um novo funcionário através das complexidades de um sistema, oferecendo insights sobre "o lado humano do sistema", é algo que a IA, por si só, ainda não consegue replicar. O futuro do aprendizado no trabalho, portanto, reside na sinergia entre a tecnologia e a interação humana, onde as ferramentas digitais potencializam, mas não substituem, a sabedoria e o suporte da experiência.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune