A perspectiva para o Ibovespa no final de 2026 tornou-se mais contida entre os principais gestores de fundos da América Latina. Segundo a pesquisa mensal do Bank of America (BofA) divulgada nesta terça-feira, o otimismo com a bolsa brasileira permanece, mas foi temperado por um novo grau de cautela diante de um cenário macroeconômico mais desafiador. Se no mês passado 73% dos entrevistados projetavam o índice acima dos 190 mil pontos, essa parcela caiu para 66% no levantamento atual.
O levantamento, que consultou 35 gestores responsáveis por aproximadamente US$ 115 bilhões em ativos, reflete um mercado atento às pressões externas e domésticas. A incerteza eleitoral aparece como o principal vetor de instabilidade interna, dividindo opiniões sobre o momento exato em que o mercado começará a precificar o chamado 'trade eleitoral'.
O impacto da incerteza eleitoral
A proximidade do pleito de outubro gera divisões claras entre os tomadores de decisão. Metade dos gestores consultados espera que a volatilidade aumente a partir de agosto, enquanto a outra metade antecipa que as movimentações políticas influenciarão os preços dos ativos mais cedo. Essa divergência de cronogramas revela um mercado que, embora posicionado, evita apostas direcionais agressivas antes de sinais mais concretos sobre a agenda econômica dos candidatos.
Historicamente, o mercado de capitais brasileiro tende a antecipar ruídos políticos, mas o cenário de 2026 traz o agravante da incerteza sobre a continuidade da política fiscal. A cautela manifestada pelos gestores sugere que o prêmio de risco exigido para manter posições em renda variável pode subir conforme o calendário eleitoral avança, limitando o potencial de valorização do Ibovespa no curto prazo.
Geopolítica e política monetária
Além das fronteiras, a geopolítica exerce influência direta sobre as expectativas para a taxa Selic. Cerca de 77% dos entrevistados pelo BofA apontam que os riscos derivados de tensões, como a guerra no Irã, podem forçar o Banco Central a desacelerar o ritmo de cortes nos juros. A expectativa de que o Copom mantenha uma postura vigilante diante da inflação global reforça a cautela com ativos de maior risco.
Não há consenso sobre o patamar final da Selic para o encerramento de 2026. Com 31% dos gestores projetando a taxa entre 13% e 13,25% ao ano, fica evidente que o mercado está precificando um cenário de juros mais altos por mais tempo do que se esperava anteriormente. O BofA, por sua vez, mantém sua projeção em 13,25%, baseada na premissa de ajustes graduais de 25 pontos-base por reunião.
Setores defensivos em foco
Diante da instabilidade, a alocação setorial reflete uma clara busca por segurança. O setor de Utilities segue como a escolha preferida dos gestores, enquanto o consumo discricionário permanece com menor exposição, ou underweight. Essa preferência por ativos de alta qualidade e estratégias de crescimento resilientes sublinha a estratégia de proteção contra um ambiente de estagflação global que ainda assombra os mercados emergentes.
Vale notar que, apesar das preocupações, o Brasil continua sendo visto com preferência em relação ao México para os próximos seis meses. Essa percepção de desempenho relativo indica que o mercado ainda enxerga fundamentos sólidos no Brasil, mesmo diante de um ambiente de maior aversão ao risco.
O que observar daqui para frente
O mercado aguarda agora por sinais mais claros sobre a condução da política monetária e o desdobramento do debate eleitoral. A volatilidade esperada para o segundo semestre deve testar a resiliência dos fundos que mantêm posições otimistas, especialmente se o cenário de inflação global se deteriorar ainda mais.
A dinâmica entre a necessidade de cortes na Selic e a pressão externa por juros altos definirá o tom dos próximos meses. Resta saber se o otimismo atual será suficiente para sustentar os níveis históricos do Ibovespa ou se a cautela prevalecerá até que a clareza política retorne ao horizonte dos investidores.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times





