O Palco Sonoro de Brooklyn

Em Fort Greene, um bairro vibrante de Brooklyn, um novo conceito de espaço comercial emerge, desafiando as fronteiras tradicionais entre hospitalidade, varejo e experiência sonora. O arquiteto Gjergji Shkurti, fundador do estúdio Figure Ground, assina o projeto para a segunda loja da Million Goods, um espaço que se distancia do modelo mais descontraído de sua unidade original em Greenpoint. Aqui, a ambição é palpável, com dois andares e um pátio generoso que convidam à exploração. A inspiração, segundo Shkurti, pende para um tom mais "regal", contrastando com o "divertido" original. Essa nova identidade se manifesta desde o imponente balcão de mármore Breccia Pernice, que define a área de bar no primeiro nível, até a cuidadosa curadoria de mobiliário e elementos arquitetônicos.

O design de Shkurti é uma ode à fusão. No andar inferior, o bar e a área social se tornam um laboratório de estilos contemporâneos nova-iorquinos. Caixas de som metálicas são habilmente integradas a marcenarias customizadas em madeira sapele, executadas com um tom específico de peca. A Bridge Street Sound foi responsável pelo sistema de áudio, que inclui um alto-falante de grande porte embutido diretamente na face do balcão de mármore. Cadeiras de bar Emeco, assinadas por Philippe Starck, alinham-se ao balcão, complementando os assentos embutidos de madeira que contornam o espaço. O teto, com seu tecido drapeado entre ripas de madeira, evoca uma estética japonesa, mas sua função vai além do visual: serve para isolamento acústico e para suavizar a iluminação.

A Arquitetura da Experiência

O espaço foi concebido para oferecer áreas sociais distintas e um ambiente de varejo integrado, mas fisicamente separado. No andar superior, a loja abriga as mercadorias, com a marcenaria customizada de Shkurti servindo como vitrine para roupas e outros produtos, descritos por Matt Reyer, co-fundador da Million Goods, como "contemporâneos e acessíveis". Uma porta em arco revela um balcão de metal, projetado pela Wood Steel Stone, que funciona tanto como ponto de venda quanto como cabine de DJ para eventos. Para aprimorar a experiência sonora no varejo, cavidades foram abertas em uma parede divisória para acomodar alto-falantes adicionais, direcionados para o espaço principal.

O pátio, um refúgio inesperado, busca inspiração no brutalismo brasileiro. Um vaso central abriga uma árvore madura, e o próprio vaso funciona como um banco. Assentos foram integrados às paredes de concreto lavado que circundam a área. A iluminação é marcada por um poste Louis Poulsen Flindt Plaza, peça central do espaço, que também patrocinou a loja, com suas luminárias espalhadas pelo ambiente. A fachada histórica do edifício foi restaurada com a aprovação dos órgãos de preservação, e o acabamento voltado para o pátio recebeu um tom de vermelho, em sintonia com a escada em espiral frontal, enquanto a fachada principal manteve o preto.

O Som como Elemento Central

A escada em espiral vermelha, original do edifício, foi revestida e pintada pela Wood Steel Stone, que também produziu uma impressionante mesa de exibição central no andar superior. Essa mesa combina alumínio e madeira, dobrando-se em camadas de compensado com acabamento em alumínio. O piso original de madeira foi restaurado e reutilizado. A integração de sistemas de som em espaços comerciais, especialmente em 'listening bars', tem se tornado uma tendência notável no design de interiores global. Esses locais priorizam a qualidade acústica, transformando a experiência do cliente.

A fotografia de Joe Thomas captura a essência deste projeto, onde cada detalhe, do mármore à marcenaria, da iluminação ao som, contribui para uma narrativa coesa. A Million Goods em Fort Greene não é apenas uma loja, mas um destino cultural que celebra a interseção entre design, arte e tecnologia sonora. Observar as crianças jogando basquete nas quadras do outro lado da rua ancora o espaço em seu contexto urbano, lembrando-nos que o design, em sua melhor forma, dialoga com a comunidade ao seu redor.

Perguntas em Aberto

O que mais surpreende no projeto de Shkurti é a sua capacidade de orquestrar elementos tão diversos em um todo harmonioso. A integração do sistema hi-fi, por exemplo, não é um mero acessório, mas um componente arquitetônico fundamental, que molda a percepção do espaço. A Million Goods se apresenta como um modelo para futuros empreendimentos que buscam ir além da simples transação comercial, oferecendo uma experiência sensorial completa. A questão que permanece é como essa abordagem, que eleva a experiência sonora a um patamar artístico, influenciará outros espaços de varejo e hospitalidade.

A fusão de diferentes linguagens de design, do brutalismo brasileiro à estética japonesa, passando pelo contemporâneo nova-iorquino, demonstra a versatilidade e a visão de Shkurti. O resultado é um ambiente que convida à permanência, à descoberta e, acima de tudo, à escuta. A cada nota tocada, a Million Goods reafirma o poder do som em definir e enriquecer a experiência humana em espaços projetados.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Dezeen