No auge do verão americano, enquanto ondas de calor castigavam o país, o Departamento de Energia (DOE) removeu mais de 1.600 páginas de seu site. O material, parte da seção “Energy Saver”, oferecia um serviço público básico: guias práticos para cidadãos economizarem energia e dinheiro, desde como inspecionar vazamentos de ar em casa até a escolha de lâmpadas mais eficientes.

A remoção em massa, reportada pela publicação Grist, não parece ser um mero trabalho de manutenção digital. O movimento é mais bem compreendido como um sintoma da estratégia da administração Trump de redefinir a relação do país com a energia, alinhando a política pública a uma narrativa ideológica específica e transformando a eficiência energética em mais um front da guerra cultural.

A ideologia da 'dominância energética'

A ação do DOE se choca com a lógica, mas é consistente com a retórica. A administração Trump promove uma agenda de “dominância energética”, que celebra o uso abundante de combustíveis fósseis como um pilar dos valores e da identidade americana. Nessa visão, a conservação é um sinal de fraqueza, e a eficiência, uma restrição desnecessária à liberdade do consumidor.

Nesse contexto, conselhos sobre como ajustar o termostato para 25°C — uma recomendação que também desapareceu do site — ou sobre como comprar um refrigerador mais econômico se tornam politicamente inconvenientes. Eles contradizem a narrativa de que o consumo irrestrito de energia é um direito e um símbolo de prosperidade, e não um recurso a ser gerenciado com inteligência.

De consenso a campo de batalha

O mais notável é como um tema antes técnico e bipartidário foi capturado pela polarização. A eficiência energética já foi um campo de acordo. O presidente Jimmy Carter impôs restrições a termostatos em 1979, e embora Ronald Reagan as tenha revertido em 1981, o mesmo Reagan assinou, em 1987, uma lei que estabeleceu padrões mínimos de eficiência para eletrodomésticos.

Hoje, a realidade é outra. O debate sobre chuveiros, máquinas de lavar e lâmpadas foi absorvido pela guerra cultural. A remoção das páginas do DOE acontece em paralelo a uma proposta da agência para dificultar a criação de novas regras de eficiência, descritas como parte de um “golpe verde”. O que era um assunto de engenharia e economia doméstica virou uma questão de identidade política.

O desaparecimento de um guia online pode parecer trivial, mas o gesto é simbólico. Ele representa a interrupção deliberada do canal entre o conhecimento técnico do Estado e a vida prática do cidadão. Quando conselhos pragmáticos são apagados por não se alinharem à mensagem política do dia, abre-se um vácuo de informação que tende a ser preenchido por desinformação e ideologia.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Grist