O Departamento de Justiça (DOJ) dos EUA solicitou formalmente a um juiz a suspensão do primeiro programa de reparações do país, implementado em Evanston, Illinois, em 2021. A iniciativa, que destinou US$ 20 milhões para compensar descendentes de moradores negros afetados por discriminação habitacional entre 1919 e 1969, tornou-se o centro de uma batalha judicial que questiona a constitucionalidade de políticas públicas baseadas em raça.

A movimentação do governo Trump alinha-se a um processo já existente, que argumenta que o programa viola a Cláusula de Proteção Igualitária da Constituição dos EUA. Até o momento, a cidade de Evanston já distribuiu mais de US$ 7 milhões — financiados por impostos sobre a venda de maconha — para centenas de beneficiários em parcelas de US$ 25 mil, destinadas a reparos residenciais e aquisição de imóveis.

O embate sobre a constitucionalidade

A essência do argumento do DOJ, liderado pela divisão de Direitos Civis, é que o programa é inerentemente discriminatório ao distribuir recursos com base na raça, ignorando critérios de necessidade individual ou dano específico comprovado. Em documento apresentado ao tribunal, o governo federal sustenta que existem formas legítimas de remediar injustiças passadas sem recorrer a divisões raciais explícitas na alocação de verbas públicas.

Por outro lado, defensores do programa, como a ex-vereadora Robin Rue Simmons, sustentam que as políticas de 'redlining' — exclusão deliberada de famílias negras de áreas valorizadas — causaram danos geracionais profundos. A tese é que a reparação não é um benefício gratuito, mas uma compensação por práticas sistêmicas que limitaram o acesso a riqueza, saúde e educação por décadas.

Mecanismos e precedentes em jogo

O caso de Evanston destaca uma divergência fundamental sobre como definir reparação. Enquanto críticos como o advogado Michael Bekesha argumentam que programas anteriores, como os voltados a vítimas de campos de internamento na Segunda Guerra Mundial, baseavam-se em danos individuais documentados, a iniciativa de Evanston foca em um grupo populacional historicamente marginalizado pela política habitacional municipal.

Essa distinção é crucial para o futuro de políticas similares em outras cidades americanas. Se a justiça federal determinar que a raça não pode ser o critério principal, o modelo de Evanston perde sua base jurídica, forçando governos locais a repensarem a estrutura de seus programas de equidade social.

Tensões institucionais e o cenário nacional

A postura da administração Trump representa uma ruptura clara em relação ao suporte que a administração Biden demonstrava a inquéritos sobre reparações. O cenário reflete uma polarização crescente: enquanto órgãos internacionais, como a ONU, pressionam por reparações históricas, o governo dos EUA posiciona-se em sentido oposto, alinhado a uma visão conservadora que rejeita qualquer política baseada em raça como critério de reparação.

Para o ecossistema de políticas públicas, o desfecho deste caso servirá como um divisor de águas. O impacto vai além de Illinois, estabelecendo limites sobre o que municípios podem ou não fazer para corrigir desigualdades históricas sem enfrentar o peso do aparato judicial federal.

Perspectivas e incertezas jurídicas

O que permanece incerto é o destino dos fundos já distribuídos e a viabilidade de outros projetos em cidades como Boston ou Detroit. A decisão do tribunal não apenas definirá o futuro de Evanston, mas enviará uma mensagem direta a outros governos locais sobre o risco jurídico de adotar programas de reparação racial.

Observadores do setor aguardam a decisão final, que pode consolidar uma nova doutrina sobre a aplicação da Cláusula de Proteção Igualitária em programas de justiça social, limitando drasticamente a autonomia local em questões de reparação histórica.

O impasse em Evanston coloca à prova a capacidade das cidades americanas de gerir seus próprios históricos de injustiça em um ambiente federal crescentemente hostil a políticas de ação afirmativa.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune