Em 29 de março de 1954, um terremoto de magnitude 7,8, um dos maiores já registrados por instrumentos na Espanha, atingiu a região de Granada. No papel, a cifra sugeria uma catástrofe iminente. Na prática, o evento não deixou vítimas e causou apenas danos pontuais, com uma intensidade máxima de grau V na escala europeia — um tremor perceptível, mas longe de ser destrutivo.

A aparente contradição, detalhada em reportagem do jornal espanhol El Confidencial, oferece uma aula fundamental sobre sismologia. O evento de Granada expõe a diferença crítica entre a magnitude de um terremoto, que mede a energia liberada em sua origem, e sua intensidade, que descreve os efeitos sentidos na superfície. A chave para decifrar o enigma estava a centenas de quilômetros sob o solo.

Magnitude não é intensidade

O hipocentro do sismo de 1954 localizou-se a impressionantes 657 quilômetros de profundidade. Para que as ondas sísmicas chegassem à superfície, precisaram percorrer uma vasta distância através do manto terrestre, um trajeto no qual sua energia se dissipou drasticamente. A magnitude de 7,8 era uma medida da força no ponto de origem; na superfície, o impacto já estava severamente atenuado.

O contraste com outro evento na mesma região é eloquente. Em 1884, um terremoto de magnitude estimada em 6,5 — consideravelmente menor — devastou Arenas del Rey, também em Granada. Por ter sido um sismo superficial, sua intensidade atingiu o grau X, causando cerca de 900 mortes e destruindo milhares de edificações. A comparação direta ilustra que, para o risco real, a profundidade pode ser um fator mais decisivo que a magnitude bruta.

O mistério geológico de Granada

A província de Granada é a única na península ibérica onde se documentam terremotos tão profundos. A explicação, segundo estudos geológicos, estaria em uma anomalia sob o mar de Alborão: um fragmento de litosfera antiga e fria que estaria mergulhando no manto terrestre. É próximo à extremidade inferior dessa estrutura que a sismicidade profunda se concentra.

Contudo, o mecanismo exato que permite a ocorrência de rupturas sísmicas a tais profundidades, onde a pressão e a temperatura são extremas, permanece um campo de debate científico. As hipóteses incluem transformações em minerais sob alta pressão, mas nenhuma explica completamente o fenômeno observado sob Granada.

O caso de 1954, portanto, transcende a curiosidade histórica. Ele serve como um lembrete de que a avaliação de risco sísmico é uma análise multifatorial, onde a magnitude é apenas uma das variáveis. A profundidade do foco, a geologia local e a resiliência das construções são peças igualmente cruciais para entender o que transforma um tremor em uma tragédia.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · El Confidencial — Tech