A empresa de energia espanhola Moeve, antiga Cepsa, deu início oficial à construção de 'Onuba', a primeira fase do que ambiciona ser o maior hub de hidrogênio verde da Europa. Com um investimento inicial superior a €1 bilhão, o projeto localizado no Parque Energético de Palos de la Frontera, na Andaluzia, representa um movimento decisivo para materializar a produção de energia limpa em escala industrial.
O movimento sinaliza uma transição crítica no setor, saindo da fase de projetos-piloto para a construção de infraestrutura de grande porte, conforme destacou o CEO da Moeve, Maarten Wetselaar. A leitura aqui é que 'Onuba' servirá como um termômetro para a viabilidade econômica e a capacidade de execução da agenda de descarbonização europeia, testando um complexo arranjo de capital público, privado e apoio político.
A arquitetura de uma aposta estratégica
A estrutura de capital do projeto é um reflexo de sua importância estratégica. A Moeve manterá o controle com 51% de participação, mas se cercou de parceiros de peso para diluir o risco e agregar expertise. Entre os sócios estão a Hy24, o maior fundo de investimento do mundo dedicado ao hidrogênio, e a Cofides, sociedade estatal espanhola. Completam o consórcio a Enagás Renovable e a Alter Enersun. A saída da Masdar da estrutura societária, mantendo-se como parceira via um contrato de compra de energia (PPA), demonstra a complexidade e a fluidez das negociações em projetos de longo prazo.
Esse modelo híbrido é sustentado por um forte apoio institucional. O projeto foi classificado como de Interesse Comum pela União Europeia e recebeu uma subvenção de €304 milhões do governo espanhol, via fundos do programa NextGenerationEU. A presença do primeiro-ministro Pedro Sánchez na cerimônia de lançamento não foi protocolar; foi um endosso explícito da iniciativa como uma peça central para a autonomia energética da Espanha e da Europa, uma preocupação que ganhou contornos geopolíticos urgentes nos últimos anos.
Geopolítica e realidade industrial
O discurso das autoridades espanholas no evento deixa claro que o hidrogênio verde é visto tanto como uma solução climática quanto uma ferramenta de soberania. A meta de transformar a Andaluzia na “grande fábrica de hidrogênio renovável da Europa” visa reposicionar a Espanha na cadeia energética global, de importadora de combustíveis fósseis a exportadora de moléculas verdes. O projeto 'Onuba', sozinho, pretende produzir 45.000 toneladas de hidrogênio renovável por ano, evitando a emissão de 250.000 toneladas de CO2.
A viabilidade industrial, no entanto, começa de forma pragmática. A produção inicial, prevista para 2029, será destinada ao autoconsumo, substituindo o hidrogênio de origem fóssil usado no próprio parque energético da Moeve. Essa estratégia garante um cliente-âncora e resolve um problema imediato de descarbonização da própria empresa. O passo seguinte, de fornecer hidrogênio para outras indústrias da região, será o verdadeiro teste para o conceito de “hub” e para a competitividade do produto final.
Com a promessa de gerar mais de 8.000 empregos em sua cadeia e de ser uma planta nativa digital, o projeto 'Onuba' é um laboratório em escala real. Seu sucesso ou fracasso não definirá apenas o futuro da Moeve, mas oferecerá um roteiro valioso sobre como a Europa pode, ou não, construir sua independência energética e cumprir suas metas climáticas.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Forbes España





