O Grupo Boticário, um dos maiores players do mercado de beleza no Brasil, atingiu a marca de R$ 38,1 bilhões em vendas ao consumidor em 2025, uma alta de 7% frente ao ano anterior. Apesar do desempenho positivo, a companhia sinaliza que o ritmo de expansão deve enfrentar desafios estruturais, impulsionados principalmente pelo cenário macroeconômico brasileiro, marcado por uma Selic em 14,5%. A leitura é que o ciclo de crescimento acelerado, que permitiu à empresa triplicar de tamanho nos últimos cinco anos, entra agora em uma fase de acomodação necessária.
Segundo entrevista concedida pelo CEO Fernando Modé ao portal InfoMoney, o setor de cosméticos, embora resiliente, não está imune à restrição da renda disponível das famílias causada pelos juros elevados. O executivo destaca que o consumo das famílias, que registrou alta de 5,1% em 2024, desacelerou para 1,3% em 2025, criando um ambiente onde a disputa pela preferência do consumidor se torna mais intensa, exigindo ajustes estratégicos na operação.
O desafio da escala e a acomodação pós-expansão
O Grupo Boticário vive um momento de transição após um ciclo agressivo de aquisições e crescimento orgânico iniciado em 2020. A estratégia de M&A foi fundamental para internalizar competências em tecnologia e dados, com a contratação de cerca de 180 cientistas de dados, elevando o quadro técnico para 500 profissionais. Esse movimento foi essencial para digitalizar a jornada do consumidor, integrando a experiência física das lojas com a conveniência do mobile.
Contudo, o CEO reconhece que o processo de triplicação da companhia trouxe dores de crescimento. O foco agora, segundo a liderança, não é apenas o volume, mas a agilidade na resposta às demandas de um consumidor que, pressionado pela economia, tornou-se mais seletivo. A empresa busca fortalecer suas bases, otimizar a logística e manter a eficiência operacional em vez de buscar novos saltos inorgânicos imediatos.
Concorrência digital e barreiras de entrada
O mercado de beleza brasileiro tem visto a ascensão de marcas nativas digitais e de influenciadores, especialmente no segmento de maquiagem. Modé, no entanto, mantém uma visão cautelosa sobre a ameaça desses novos players. Embora a barreira de entrada seja baixa devido à influência digital, o executivo argumenta que a operação de maquiagem é complexa, exigindo uma cadeia produtiva robusta para lidar com a diversidade de cores e demandas de estoque.
O Grupo Boticário utiliza parcerias estratégicas, como a marca Nina Secrets, para capturar esse público sem perder a competência industrial. A avaliação interna é que, apesar do hype em torno de influenciadores, a continuidade dessas marcas emergentes é o principal gargalo. A participação de mercado desses novos entrantes ainda permanece abaixo de 5%, o que sugere uma consolidação do setor em torno de players que conseguem equilibrar marketing digital com eficiência produtiva.
Impactos macro e a questão trabalhista
Além dos juros, o radar do grupo monitora riscos geopolíticos que podem encarecer insumos, como o plástico, derivado do petróleo. A instabilidade em rotas logísticas globais, como o Estreito de Ormuz, é vista como um risco potencial para o custo de reposição de embalagens. A estratégia de repasse de preços ao consumidor final é tratada com cautela, priorizando ganhos de eficiência interna para absorver eventuais pressões de custo.
Outro ponto de atenção é a possível alteração na jornada de trabalho 6x1. O Grupo Boticário, por operar intensamente no varejo de shoppings, antecipa que mudanças na legislação teriam impacto direto em custos e na organização das escalas. A empresa defende a flexibilização e a prevalência do negociado sobre o legislado, alinhando-se à lógica da reforma trabalhista de 2017 como o caminho mais viável para a sustentabilidade do setor.
Perspectivas para o mercado de beleza
O cenário de curto prazo permanece incerto quanto à trajetória dos juros, o que mantém a cautela da gestão. A empresa segue focada em desenvolver algoritmos para otimizar o uso de mão de obra e espaço físico, preparando-se para um ambiente de crescimento atenuado. O sucesso do grupo dependerá de sua capacidade de navegar entre a necessidade de manter margens saudáveis e a pressão por preços competitivos em um mercado menos comprador.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





