A Organização de Aviação Civil Internacional (OACI), o principal órgão regulador da aviação global, emitiu um chamado veemente a seus estados-membros: é preciso um compromisso mais firme para proteger aeronaves civis dos riscos crescentes em zonas de conflito. O alerta, motivado pela escalada militar em diversas partes do mundo, reflete uma nova e preocupante realidade para a segurança aérea.
O apelo não é genérico. A OACI aponta para ameaças específicas que definem a guerra moderna: sistemas de armas de longo alcance, drones, interferências em sinais de GPS e sistemas avançados de defesa antiaérea. A leitura é que a flexibilidade operacional das companhias aéreas, capazes de reconfigurar rotas, já não é suficiente para mitigar a ameaça fundamental à segurança. O problema não é mais apenas evitar uma zona de guerra declarada, mas navegar em um ambiente onde o perigo é difuso e tecnologicamente sofisticado.
A nova geometria do risco
O alerta da OACI é um sintoma de como a natureza do conflito mudou. A proliferação de tecnologias militares de baixo custo e alta eficácia, como drones e sistemas de interferência eletrônica (jamming), embaralhou a distinção clara entre o campo de batalha e o espaço civil. O risco não está mais confinado a áreas geográficas bem delimitadas. Ele se tornou assimétrico e imprevisível, podendo ser acionado por estados ou por atores não-estatais.
Nesse cenário, a avaliação de risco para uma companhia aérea se torna exponencialmente mais complexa. Um voo comercial pode inadvertidamente se tornar um alvo confundido com uma aeronave militar ou ser vítima de fogo cruzado digital, como a perda de sistemas de navegação por satélite. A atualização dos manuais de segurança e avaliação de risco pela OACI é uma admissão de que as velhas regras não se aplicam mais a este novo tabuleiro.
Entre a diplomacia e a tecnologia
A solução proposta pelo órgão passa por um fortalecimento da cooperação. A OACI pede que os países compartilhem rapidamente informações de inteligência sobre ameaças e melhorem a coordenação entre autoridades civis e militares. Na teoria, a lógica é impecável. Na prática, o desafio é imenso. Inteligência é um dos ativos mais sensíveis de um Estado, e a disposição para compartilhá-la diminui em um cenário de crescente rivalidade geopolítica.
O apelo por maior coordenação também expõe uma tensão fundamental: a velocidade da ameaça tecnológica versus a lentidão dos canais diplomáticos e burocráticos. A proibição do uso de armas contra aeronaves civis, consagrada no Convênio de Chicago de 1944, continua sendo o pilar legal, mas sua aplicação se torna mais difícil quando a identificação de alvos é automatizada e as decisões são tomadas em frações de segundo.
O recado da OACI transcende a aviação. É um lembrete de que a infraestrutura da globalização opera sobre uma base de confiança e normas compartilhadas. Quando essa base é erodida pela tecnologia de conflito, a tarefa não é apenas desviar de uma rota, mas reconstruir o próprio arcabouço que permite ao mundo voar em segurança.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Forbes España





