O ar na primeira galeria do Hammer Museum, em Los Angeles, não é apenas o ar condicionado estéril de um museu convencional. Ele carrega o peso do petricor, aquele aroma terroso que emerge do solo após a chuva, enquanto as paredes vibram com uma frequência baixa, quase imperceptível, que simula a respiração de um organismo vivo. Ao entrar em "Several Eternities in a Day: Form in the Age of Living Materials", o visitante é imediatamente retirado da linearidade do relógio e lançado em um espaço onde o passado e o presente se sobrepõem. A curadoria de Pablo José Ramírez não propõe uma exposição de objetos estáticos, mas um ecossistema onde a matéria, seja ela barro, fruta em decomposição ou fibra vegetal, mantém sua agência e sua capacidade de transformação constante.
O título da mostra, inspirado pelo poeta chileno Nicanor Parra, antecipa a experiência: o tempo aqui não é cronológico, mas uma sucessão de momentos que se alongam ou se comprimem. A exposição reúne 18 artistas contemporâneos, majoritariamente indígenas e latino-americanos, cujas obras desafiam a visão ocidental de que a natureza é um recurso passivo à espera de domínio. Em vez disso, a matéria é apresentada como uma colaboradora ativa, um agente que sangra, respira e, inevitavelmente, se desfaz diante dos nossos olhos, forçando uma reavaliação de como habitamos o mundo.
A materialidade como performance viva
Um dos pontos mais instigantes da mostra é a aceitação da efemeridade. As obras de Carmen Argote, por exemplo, utilizam papel tratado com cochonilha e limão, sobre o qual a artista esculpiu figuras com polpa de abacate. À medida que a exposição avança, o fruto decompõe o papel, transformando a peça em um processo contínuo de criação e destruição. Como observa o curador, a mudança é o sinal definitivo de que algo está vivo. Essa premissa ecoa nos trabalhos de Ana Mendieta, cujos filmes projetados nas paredes capturam a terra em movimento — seja em um gramado que parece inalar, seja em rochas que revelam a fragilidade do corpo humano enterrado sob elas.
Essa abordagem desmantela a distinção entre o corpo humano e a geologia. Artistas como Jackie Amézquita, com suas paredes de terra batida, reforçam a ideia de que somos, em essência, matéria terrestre em fluxo. A exposição não busca apenas representar a natureza, mas integrar a sua lógica de ciclos, onde a morte de uma forma é a condição necessária para o nascimento de outra, um conceito que reverbera profundamente nas tradições ancestrais presentes nas salas.
Ancestralidade e a memória do barro
No coração da última galeria, dedicada inteiramente à cerâmica, a técnica ancestral é apresentada não como um resquício arqueológico, mas como um conhecimento vivo. Rose B. Simpson utiliza o mesmo solo que seus antepassados Pueblo para moldar bustos e figuras andróginas, tratando a escultura como uma forma de história oral transmitida pelas mãos. O barro, aqui, é um repositório de memória que resiste ao tempo, mantendo a pressão dos dedos do artista como uma assinatura indelével de sua presença no mundo.
Raven Halfmoon, por sua vez, apresenta figuras colossais cujas superfícies viscosas e manchadas de tinta sugerem que a obra ainda está úmida, pronta para ser refeita. Essa sensação de inacabamento é proposital: ela convida o espectador a reconhecer que a tradição não é um bloco monolítico, mas uma prática que se atualiza a cada geração. O barro, sob esse olhar, deixa de ser apenas um material e se torna uma linguagem que conecta o indivíduo ao coletivo, o presente ao ancestral.
Tensões entre tecnologia e natureza
Nem tudo na exposição é harmonia orgânica. A inclusão de obras como a série de Patricia Domínguez-Claro, que retrata figuras montadas em drones, introduz um elemento de choque. O contraste com os totens de madeira e fibras vegetais de Nereyda López Gutiérrez é intencional e desconfortável. Enquanto a tecnologia parece tentar sobrepor-se ao ambiente, as criações de López Gutiérrez — espíritos e guardiões da flora — parecem animar a matéria inanimada, desafiando a frieza digital com uma vitalidade quase mística que preenche o espaço da galeria.
Essa tensão é essencial para a proposta da mostra. Ela nos obriga a questionar se o nosso futuro será definido pela dominação técnica ou por uma reaproximação com a força vital do planeta. Ao colocar lado a lado a abstração cósmica de Sky Hopinka e o detalhamento minucioso das pinturas de Santiago Yahuarcani, a exposição sugere que existem múltiplas formas de ler a realidade, muitas das quais foram sistematicamente silenciadas pela modernidade ocidental.
O horizonte do incerto
O que permanece após a visita é uma sensação de instabilidade. A exposição não oferece respostas definitivas sobre o nosso papel no antropoceno, mas nos deixa com perguntas sobre o que significa habitar um mundo que não nos pertence, mas do qual somos parte integrante. A ideia de que a natureza é uma colaboradora — e não um estoque de recursos — exige uma mudança radical de perspectiva que vai muito além da estética.
Se as obras de arte continuarão a se decompor, a se transformar ou a se manter como testemunhas silenciosas até o encerramento da mostra em agosto, é um detalhe que parece secundário diante da experiência vivida. O verdadeiro teste será observar como essa percepção de "tempo não cronológico" se traduzirá na forma como os espectadores se relacionam com o ambiente lá fora, onde a terra continua a respirar, mesmo que a gente insista em não ouvir.
O tempo, tal como o barro nas mãos de um artista, permanece maleável até que a última camada de sentido seja aplicada. A pergunta que persiste ao sair do museu é se ainda somos capazes de reconhecer a vida na matéria que nos cerca, ou se estamos condenados a ver apenas o que podemos consumir.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · ARTnews





