Hannah Einbinder, mais conhecida como a roteirista millennial Ava na aclamada série Hacks, está se aprofundando em um território completamente diferente. Ela protagoniza, ao lado de Gillian Anderson, o novo filme de Jane Schoenbrun, uma das vozes mais quentes do cinema independente americano: Teenage Sex and Death at Camp Miasma. O projeto é uma desconstrução do gênero de terror, mas a experiência no set parece ter solidificado uma visão muito clara para a atriz sobre como a arte deve ser feita.

Em uma longa conversa com a publicação britânica Little White Lies, Einbinder articula uma filosofia de trabalho que soa como um antídoto para décadas de mitos sobre Hollywood. Para ela, a noção de que grandes obras nascem do sofrimento e de ambientes tóxicos, liderados por gênios abusivos, é “uma completa bobagem”. A sua colaboração com Schoenbrun serviu como prova de que um processo criativo baseado em gentileza, suporte e vulnerabilidade não apenas é possível, como produz resultados mais potentes.

A construção de um corpo incômodo

Para dar vida a Kris, sua personagem no filme, Einbinder iniciou o processo de fora para dentro. A construção foi física, focada em expressar desconforto. “É muito corporal para mim. Eu visto as roupas”, afirmou. Um dos figurinos principais, com saia longa e meias altas, foi diretamente inspirado no filme Secretária (2002), de Steven Shainberg. A ideia era que Kris, cuja forma corporal é “inerentemente sexualizada”, sentisse a necessidade de se cobrir, de se esconder. Óculos, gestos e até a maneira de empurrar as mãos foram “roubados” da própria diretora, Jane Schoenbrun, para compor uma fisicalidade que transmitisse ansiedade e retração — o oposto completo da postura expansiva de sua personagem em Hacks.

Essa camada física foi complementada por um mergulho intelectual no universo que o filme habita. Schoenbrun forneceu uma lista de referências que incluía clássicos do terror slasher como Halloween e O Massacre da Serra Elétrica, além de obras do cânone psicosexual como Persona, de Ingmar Bergman, e Crash, de David Cronenberg. Einbinder expandiu a pesquisa por conta própria, adicionando detalhes sutis, como uma pequena tatuagem de um machado de batalha, uma homenagem direta ao filme Ligadas pelo Desejo (Bound), das irmãs Wachowski. A personagem, assim, se torna uma amálgama dos filmes que viu, uma construção metalinguística que reflete a própria natureza do projeto.

A gentileza como método

O que mais parece ter marcado Einbinder, no entanto, foi o método de direção de Schoenbrun, descrito como “gentil, solidário, caloroso e detalhado”. A diretora, segundo a atriz, possui uma das mais altas inteligências emocionais que já viu, com uma capacidade quase de “raio-x” para perceber os sentimentos da equipe. Esse ambiente de segurança foi crucial, especialmente para as cenas de maior intimidade, permitindo uma exploração profunda da temática do filme: a libertação da vergonha, o confronto com a dissociação corporal e a aceitação do desejo.

Essa experiência positiva cristalizou sua visão sobre a indústria. “É um mito total que o bom trabalho só é feito por algum gênio louco que faz todo mundo sofrer”, disse Einbinder. Para ela, bons artistas são gentis porque são perceptivos e empáticos. A habilidade técnica de compor um plano, argumenta, não pode se sobrepor à capacidade de compreender pessoas. Essa rejeição ao arquétipo do “gênio difícil” é um posicionamento cada vez mais vocalizado por uma nova geração de talentos em Hollywood, que questiona por que a excelência artística deveria vir acompanhada de crueldade.

As experiências positivas em sets como o de Hacks e, agora, o de Schoenbrun, parecem ter estabelecido um novo padrão para a carreira de Einbinder. Ela afirma se sentir mais poderosa e corporificada, disposta a usar essa posição para garantir que ninguém ao seu redor seja tratado de forma desrespeitosa. “Sem divas”, ela diz, redefinindo o termo para celebrar profissionais como Jean Smart — talentos imensos cuja genialidade não depende de criar um ambiente de medo, mas de colaboração. A mensagem é clara: o futuro do cinema que lhe interessa é provocador e alegre, mas, acima de tudo, gentil.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Little White Lies