A Harvey, uma das mais proeminentes startups no campo da tecnologia jurídica, anunciou a criação de seu primeiro modelo de inteligência artificial proprietário, batizado de Tenet. A empresa, que ergueu um negócio avaliado em US$ 11 bilhões aplicando modelos de IA de terceiros como os da OpenAI e Anthropic, agora busca trilhar seu próprio caminho tecnológico.

O movimento é uma resposta direta a uma dinâmica cada vez mais comum no ecossistema de IA: o risco de o fornecedor se tornar um concorrente direto. Com gigantes como OpenAI e Anthropic mirando o lucrativo mercado jurídico, a Harvey se viu em uma posição vulnerável. Construir seu próprio motor não é apenas uma opção, mas uma manobra estratégica para garantir controle sobre custos e, mais importante, sobre seu futuro.

Da dependência à soberania

Até agora, a operação da Harvey funcionava sobre uma base de modelos de IA de propósito geral. Cada vez que um advogado utilizava sua plataforma, a empresa pagava uma taxa ao provedor do modelo — um custo que escala com o sucesso e corrói as margens. Segundo reportagem do Business Insider, o desenvolvimento do Tenet tem uma dupla motivação: custo e qualidade. Um modelo próprio permite à Harvey internalizar uma parcela significativa das operações, reduzindo os pagamentos a terceiros e abrindo caminho para margens mais saudáveis.

Além da eficiência financeira, há a busca por especialização. Modelos generalistas são poderosos, mas um LLM treinado especificamente para o raciocínio jurídico promete um desempenho superior em tarefas complexas. Para isso, a Harvey contratou advogados para criar e avaliar dados de treinamento, refinando uma versão do Kimi K3, um modelo open-source da startup chinesa Moonshot. O resultado é um motor ajustado para as nuances do direito, algo que os modelos generalistas ainda não oferecem de forma nativa.

O plano de jogo: de SaaS a consultoria

O projeto da Harvey com o Tenet é mais ambicioso do que apenas uma substituição de fornecedor. A visão de longo prazo, segundo seus fundadores, é transformar o Tenet em um bloco de construção para que os próprios escritórios de advocacia treinem seus modelos customizados. A ideia é que cada firma possa alimentar o modelo com suas décadas de casos, negociações e conhecimento interno, criando uma IA que opere de acordo com sua cultura e expertise.

Essa estratégia reposiciona a Harvey no mercado. A empresa deixaria de ser apenas uma fornecedora de software (SaaS) para se tornar uma espécie de consultoria de serviços profissionais, semelhante a uma "Big Four" da tecnologia. Ela não apenas venderia a ferramenta, mas ajudaria os clientes a configurá-la para extrair valor único. Na ironia do ecossistema de startups, a empresa que já foi chamada de um mero "invólucro" do ChatGPT pode provar que o invólucro, quando bem executado, é a camada mais valiosa da pilha.

A aposta da Harvey sinaliza um amadurecimento da camada de aplicação em IA. Para empresas que atingem certa escala, a verticalização deixa de ser um luxo para se tornar uma necessidade estratégica. O desenvolvimento de um modelo proprietário é um movimento defensivo contra a comoditização e ofensivo na busca por uma vantagem competitiva duradoura. A questão, agora, é se a especialização vencerá a corrida contra a velocidade de evolução dos gigantes generalistas.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Business Insider