O verão europeu, com dias quentes e a Copa do Mundo, trouxe um alívio temporário para as cervejarias do continente. No entanto, a euforia momentânea não disfarça uma tendência de longo prazo: os europeus estão bebendo menos cerveja. O consumo na Europa caiu 3,2% em 2025 e acumula uma retração de 9,2% desde 2019, segundo dados da Brewers of Europe. A queda é atribuída a fatores como a crescente popularidade de bebidas menos alcoólicas entre a Geração Z e o impacto de medicamentos para perda de peso, como o Ozempic. Glenn Caton, presidente da Heineken para a Europa, também aponta para a inflação como um fator crucial. "Não há dúvida de que a inflação de preços impactou o consumo do consumidor ao longo do tempo", afirmou Caton à Fortune. A invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022 elevou os custos de energia e grãos, forçando as cervejarias a repassar os aumentos. A Heineken, por exemplo, aumentou os preços da cerveja em chope para pubs britânicos em cerca de 5,7% entre fevereiro de 2025 e fevereiro de 2026. Embora a Heineken tenha retornado ao crescimento global no segundo trimestre de 2026, com um aumento de 1,6% nos volumes, esse avanço não se deve aos consumidores europeus, que continuam em "declínio estrutural", segundo Caton.

Reestruturação e cortes para otimizar margens

A Europa é a maior região de vendas da Heineken, mas também a que apresenta as margens de lucro mais finas. No primeiro semestre, a Europa representou 38,4% das vendas totais, mas apenas um quarto do lucro operacional. Diante desse cenário, a empresa lançou o plano EverGreen 2030. A iniciativa prevê a eliminação de até 6.000 empregos globalmente ao longo de dois anos para economizar €500 milhões anuais e impulsionar os lucros. Desse total, cerca de 3.000 postos de trabalho já foram cortados na primeira metade de 2026, com o CFO Harold van den Broek indicando que a Europa será uma das regiões mais afetadas. A reestruturação também envolve a fusão de nove unidades de negócios nacionais em quatro unidades operacionais multisserviços, visando criar uma estrutura mais enxuta, ágil e com custos reduzidos para oferecer melhor valor ao consumidor. Essa mudança representa um afastamento da abordagem tradicionalmente local da Heineken.

Aposta em cervejas sem álcool e baixo teor alcoólico

Para mitigar o declínio e atrair consumidores que buscam reduzir o consumo de álcool, a Heineken está investindo fortemente em cervejas sem álcool e de baixo teor alcoólico. A linha Heineken 0.0, lançada em 2017, tem ganhado popularidade, com volumes de vendas de baixo e nenhum álcool crescendo 12% no primeiro semestre de 2026. A empresa busca oferecer opções que permitam aos consumidores moderar o consumo sem abandonar suas marcas preferidas. A concorrência nesse segmento tem aumentado, o que, segundo Caton, embora dificulte o trabalho da Heineken, é positivo para o crescimento geral do mercado. Atualmente, uma em cada 12 cervejas consumidas na União Europeia é sem álcool. A Heineken também está inovando com versões de 0.0% de álcool com sabores, como limão e sabugueiro, e cervejas com teor alcoólico de cerca de 3,5%.

Desafios no mercado de pubs e a busca por valor

Os pubs e bares representam cerca de metade do negócio europeu da Heineken. No Reino Unido, a empresa possui aproximadamente 2.350 pubs e estaria em negociações para adquirir a Stonegate em um negócio avaliado em £300 milhões. Caton acredita que os bons pubs no Reino Unido estão prosperando, pois as pessoas ainda querem socializar presencialmente. No entanto, dados recentes indicam que 161 pubs britânicos fecharam no primeiro trimestre de 2026, um aumento de 26% em relação ao ano anterior, embora a British Beer & Pub Association culpe impostos e custos operacionais. Em toda a UE, a participação de cervejas consumidas em bares e restaurantes parou de encolher após anos de declínio. A Heineken argumenta que os bares são parte essencial da economia, atraindo turistas e promovendo a socialização.

Perspectivas e o futuro da cerveja

Para Caton, o retorno da Heineken ao crescimento na Europa dependerá da criação de mais valor para os consumidores, seja pela redução de preços ou pela oferta de novas opções de baixo teor alcoólico. Ele se mostra confiante no futuro da cerveja, que, segundo ele, "está ao redor de 5.000 anos e não vai a lugar nenhum". O desafio agora é adaptar essa bebida milenar às novas demandas de um mercado em constante transformação, onde a saúde e o bem-estar ganham cada vez mais espaço. A Heineken busca equilibrar a tradição com a inovação para garantir sua relevância em um cenário de consumo em mutação.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune