A Hobby Lobby, gigante do varejo de artesanato com mais de mil lojas nos Estados Unidos, é conhecida por seus preços acessíveis e vasta gama de produtos. No entanto, por trás das prateleiras, a família Green, proprietária da empresa, tem utilizado os lucros da companhia para um propósito mais ambicioso: moldar a cultura e a legislação americana de acordo com sua visão evangélica. Essa estratégia, que abrange desde a aquisição de dezenas de milhares de artefatos bíblicos até o financiamento de causas conservadoras, é detalhada no livro "The Gospel According to Hobby Lobby", do jornalista Michael Blanding.
Blanding, que se debruçou sobre a história da família após se deparar com uma notícia sobre um tablet cuneiforme apreendido no Museu da Bíblia, argumenta que os Green têm direcionado centenas de milhões de dólares para promover sua cosmovisão bíblica. A iniciativa, que ele classifica como nacionalismo cristão, busca alinhar a sociedade e as leis americanas com o que consideram ser a verdade bíblica. A vasta rede de lojas da Hobby Lobby, com cerca de 50.000 funcionários e presença em 48 estados, confere à família um alcance significativo, tornando a transparência sobre o uso de seus lucros uma questão de interesse público para os consumidores, como Blanding aponta.
Busca por Artefatos e o Museu da Bíblia
A jornada da família Green no mundo dos artefatos bíblicos ganhou força a partir de 2009, quando o presidente da Hobby Lobby, Steve Green, começou a reunir uma vasta coleção com o objetivo de "provar a precisão e a veracidade histórica da Bíblia". Grande parte desses itens foi destinada ao Museu da Bíblia, uma instituição de 430.000 pés quadrados inaugurada em 2017, a poucos quarteirões do Capitólio dos EUA. Steve Green preside o conselho do museu, que, segundo reportagens, custou à família cerca de US$ 500 milhões para ser estabelecido. Embora opere como uma organização sem fins lucrativos separada, Blanding descreve a linha entre a família e o museu como "sempre muito, muito tênue". A Hobby Lobby frequentemente comprava artefatos e os doava ao museu, obtendo benefícios fiscais em troca. Essa prática, no entanto, atraiu o escrutínio federal. Em 2010, a empresa concordou em comprar mais de 5.500 artefatos por US$ 1,6 milhão, apesar de advertências de especialistas sobre a proveniência de antiguidades saqueadas do Iraque. A empresa chegou a enviar os itens sob rótulos falsos. Em 2017, a Hobby Lobby fechou um acordo, abriu mão de milhares de artefatos, pagou US$ 3 milhões e assumiu a responsabilidade por suas ações. O tablet de Gilgamesh, adquirido em 2014 por cerca de US$ 1,67 milhão, foi apreendido em 2019 e a empresa consentiu com sua apreensão em 2021. Os promotores alegaram que a casa de leilões ocultou a falsa proveniência do tablet da Hobby Lobby e do museu. No mesmo ano, o Iraque recebeu cerca de 17.000 artefatos saqueados dos EUA, em uma das maiores repatriações já realizadas, com aproximadamente 12.000 itens tendo sido detidos pelo Museu da Bíblia.
Influência Cultural e Jurídica
O que mais surpreendeu Blanding foi a forma como os Green utilizam seu capital. Em vez de focar em contribuições de campanha e eleição de políticos, a família investiu centenas de milhões de dólares na promoção de sua visão de mundo bíblica, visando influenciar leis e a sociedade para que se alinhem com suas crenças. Essa influência se estende a diversas áreas, incluindo a educação, o sistema judicial e grupos que redigem e promovem legislação. Um dos embates judiciais mais significativos impulsionados pela família foi o caso "Burwell v. Hobby Lobby", em que a Suprema Corte decidiu, em 2014, que empresas com controle fechado poderiam ser isentas de regulamentações que violassem suas crenças religiosas. Essa decisão poupou a Hobby Lobby de cobrir certos contraceptivos, o que, segundo Blanding, limitou as escolhas reprodutivas dos funcionários. A família também tem apoiado causas antiaborto e anti-LGBTQ+, bem como a oração escolar e o ensino da Bíblia em escolas. O poder financeiro por trás dessas iniciativas é substancial: as vendas da Hobby Lobby em 2021 ultrapassaram US$ 7,7 bilhões, e em 2022, o fundador David Green possuía uma fortuna avaliada em US$ 14 bilhões, com todo o capital votante da empresa transferido para um trust. O próprio Green chegou a afirmar que "a riqueza pode ser uma maldição".
Desafios e a Narrativa da Família
Os Green optaram por não cooperar com a investigação de Blanding para seu livro, recusando entrevistas. No entanto, sua proeminência e o desejo de disseminar sua narrativa permitiram que o autor reconstruísse suas visões a partir de livros, artigos, podcasts e outras entrevistas concedidas pela família. Blanding complementou sua pesquisa com entrevistas de acadêmicos bíblicos, ex-funcionários do Museu da Bíblia e especialistas no movimento religioso conservador. O advogado da família chegou a contatar Blanding, questionando seus métodos de reportagem e solicitando a revisão do manuscrito, o que foi recusado. Apesar da falta de cooperação direta, Blanding buscou apresentar um retrato equilibrado, descrevendo o livro como uma "exposição" que visa compreender as motivações da família, em vez de ser um "discurso anti-religioso ou anti-corporativo". Ele reconhece a sinceridade das crenças dos Green e propõe a reflexão sobre o que tais convicções motivariam a fazer, especialmente em um país pluralista como os Estados Unidos.
Perguntas em Aberto e o Futuro da Influência
A obra de Blanding levanta questões cruciais sobre a compatibilidade das convicções religiosas profundas com os princípios democráticos em uma sociedade diversa. A forma como a família Green pretende continuar a exercer sua influência cultural e religiosa, e os limites dessa influência, permanecem pontos de observação importantes. A dinâmica entre a busca por autenticidade bíblica e a manutenção de um espaço democrático inclusivo continuará a ser um tema relevante. A capacidade de outros grupos religiosos e culturais de mobilizar recursos e influenciar o debate público de maneira semelhante também é um aspecto a ser acompanhado.
A narrativa da Hobby Lobby e da família Green, conforme apresentada por Michael Blanding, é um convite à reflexão sobre o poder do capital privado na formação do discurso público e na moldagem de valores em sociedades democráticas, especialmente quando alinhado a fortes convicções religiosas. A forma como os Estados Unidos navegará essas tensões entre liberdade religiosa, influência corporativa e pluralismo social definirá parte de seu futuro.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





