A inteligência artificial tem sido recebida com ceticismo pelo establishment cultural, sendo frequentemente associada à produção de conteúdos descartáveis e sem alma. No entanto, os artistas Holly Herndon e Mat Dryhurst, conhecidos por sua trajetória na música eletrônica e na exploração de tecnologias de vanguarda, propõem uma visão distinta. Para eles, a tecnologia não representa o fim da criatividade, mas uma oportunidade para um novo renascimento, onde a arte se afasta do culto ao indivíduo para se tornar uma prática coletiva e intencional.

Em sua recente instalação na Bienal de Veneza, intitulada 'Attention Guild', o casal explorou como agentes de IA podem interagir e criar linguagens musicais próprias. Segundo reportagem da The Atlantic, o trabalho desafia a percepção de que a IA apenas replica padrões, sugerindo que o uso estratégico da tecnologia pode, na verdade, liberar os artistas da repetição de tropos e permitir a exploração de territórios estéticos antes inalcançáveis.

O novo paradigma da autoria coletiva

A trajetória de Herndon e Dryhurst é marcada por uma busca constante pela novidade. Desde o uso de redes neurais em seu álbum 'PROTO', de 2019, até a criação da plataforma Holly+, que permite a transformação de vozes, a dupla tem atuado como ponte entre o desenvolvimento técnico e a expressão artística. Eles argumentam que, assim como a fotografia e o cinema foram inicialmente vistos com desconfiança, a IA está reconfigurando o que entendemos por autoria.

O conceito de 'protocolo artístico' defendido pelos dois sugere que, em um mundo onde a geração de imagens e sons é barata, o valor artístico migra para a intenção e para a estrutura dos sistemas criados. Eles acreditam que a arte deveria ser menos sobre a propriedade de um objeto final e mais sobre a construção de redes de conhecimento compartilhado, funcionando como uma extensão da própria experiência humana.

O embate entre eficiência e intenção

Um dos pontos centrais do debate proposto pelos artistas é a distinção entre a produção de 'slop' — conteúdo de baixa qualidade gerado em massa — e a criação artística consciente. Enquanto o mercado de tecnologia tende a priorizar a eficiência e a escalabilidade, Herndon e Dryhurst defendem a necessidade de 'introduzir incoerência' nos modelos de IA para evitar que eles gravitem apenas em torno de clichês e tropos previsíveis.

Essa abordagem exige que o artista atue como um curador de processos, não apenas como um executor. A colaboração com cientistas de dados e engenheiros torna-se parte integrante do fluxo criativo, transformando a relação com o software em um feedback loop. Para eles, o perigo não reside na tecnologia em si, mas na nossa disposição em ceder a agência criativa para algoritmos de recomendação que visam apenas o engajamento superficial.

Implicações para o ecossistema criativo

As tensões sobre direitos autorais e o treinamento de modelos com dados humanos continuam sendo o maior desafio para a integração da IA nas artes. A tentativa da dupla com a startup Spawning, que buscava criar um registro de opt-out para criadores, ilustra a dificuldade de conciliar os interesses da indústria tecnológica com as necessidades dos artistas. O fechamento da empresa em 2025 reforçou a percepção de que soluções isoladas são insuficientes frente ao poder das grandes corporações.

Contudo, a visão de Herndon e Dryhurst aponta para um futuro onde a criatividade humana pode ser preservada através da criação de espaços e ferramentas que não dependam da economia de atenção. Para eles, o foco deve estar em como a IA pode servir como uma extensão da nossa própria humanidade e memória, em vez de um substituto para a nossa capacidade de expressar o que é, essencialmente, inefável.

O futuro da arte sob novas regras

O que permanece incerto é se a estrutura da economia criativa permitirá essa transição para um modelo de 'economia da intenção'. A dependência de plataformas proprietárias e o design focado em viciar o usuário ainda são barreiras significativas para qualquer revolução estética baseada em IA.

Observar a evolução desses experimentos em Veneza e em outros espaços de vanguarda permitirá entender se o otimismo da dupla é sustentável. Se a arte for capaz de se desvincular da propriedade e retomar seu papel de mediadora da vida cotidiana, talvez estejamos, de fato, diante de uma mudança profunda. A questão não é o que a IA fará conosco, mas o que decidiremos construir enquanto a tecnologia nos molda.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · The Atlantic — Technology