O silêncio, por vezes, é o prenúncio da catástrofe. Em um mundo assolado por mais conflitos do que em qualquer outro momento desde a Segunda Guerra Mundial e acelerado por desastres climáticos, o setor humanitário enfrenta um paradoxo desolador: a demanda por ajuda nunca foi tão alta, mas o financiamento encolheu drasticamente. Quase 260 milhões de pessoas necessitam de assistência, com mais de 118 milhões deslocados – um recorde sombrio. Clínicas fecham, escolas suspendem atividades, vacinas não chegam. A expectativa é de milhões de mortes evitáveis até 2030. É nesse cenário de escassez e urgência que a inteligência artificial, muitas vezes vista com desconfiança e associada a riscos existenciais, emerge não como uma ameaça, mas como uma ferramenta potencialmente salvadora.

A líder de pesquisa e inovação da International Rescue Committee (IRC), uma das maiores organizações humanitárias do mundo, defende um posicionamento ousado: o setor deve estar "all in" na IA, não apenas como usuária de ponta, mas como protagonista na mitigação de seus riscos. A premissa é clara: em contextos de crise, onde as populações têm o menor poder de recusar ou contestar tecnologias, o princípio de "não causar dano" deve ser a bússola inegociável. A pergunta, portanto, não é se a IA pode ajudar, mas como garantir que sua aplicação seja segura e eficaz, elevando o impacto onde ele é mais desesperadamente necessário.

O Imperativo da Invenção em Tempos de Crise

O contexto atual impõe uma necessidade premente de inovação. A contração de 25% no financiamento humanitário desde 2024 força as organizações a buscarem eficiência e escala sem precedentes. A IA surge como uma resposta a essa pressão, oferecendo caminhos para otimizar operações e expandir o alcance. O serviço digital Signpost, da IRC, já alcançou 20 milhões de pessoas com informações cruciais em momentos de vulnerabilidade, com moderação individualizada. Agora, a aposta é em aprendIA, um mentor virtual via WhatsApp que visa alcançar quase um milhão de crianças na Nigéria até 2026 e 6,9 milhões até 2028, a um custo estimado de US$ 0,20 por criança. Esta abordagem aproveita a tecnologia já familiar aos usuários, democratizando o acesso à informação e ao suporte em larga escala.

Além da comunicação e informação, a IA está sendo aplicada para resolver problemas logísticos e de identificação complexos. Em zonas de conflito, onde censos são inexistentes ou foram destruídos, a combinação de IA e imagens de satélite permite a localização de crianças que não constam em nenhum registro oficial. Sem saber onde elas estão, a vacinação e a assistência se tornam impossíveis. Ferramentas que adaptam rotas de entrega em tempo real, considerando as condições climáticas e de conflito, prometem reduzir o custo por criança em 25% e identificar entre 10% e 20% mais crianças necessitadas. Esses pilotos, que em breve serão lançados na Somália, demonstram o potencial da IA para superar barreiras operacionais e salvar vidas de maneira mais eficiente e direcionada.

A Disciplina Operacional da IA Responsável

Para o setor humanitário, a máxima "mover rápido e quebrar coisas" é incompatível com o princípio fundamental de "não causar dano". A aplicação da IA exige uma abordagem metódica e rigorosa, focada em prototipagem e avaliação contínua. Antes de qualquer ferramenta de IA ser exposta a um cliente, ela passa por meses de testes em cenários reais, com supervisores humanos avaliando cada resposta segundo critérios de segurança, foco no cliente e sensibilidade ao trauma. O sistema aprendIA, por exemplo, viu sua taxa de aprovação subir de 52% para 77% durante seis meses de testes na Grécia, Itália, El Salvador e Quênia, com relatos de aumento de 70% na velocidade de trabalho das equipes. Contudo, falhas persistiram, levando à decisão de não implementá-lo isoladamente.

A disciplina reside em reconhecer as limitações e os riscos. Respostas mais sensíveis podem ser filtradas antes de chegar ao modelo de IA, e cada interação final é validada por um humano. A publicação transparente de falhas, inclusive, é considerada essencial para que o setor aprenda coletivamente e evite repetir erros. Essa abordagem se estende ao acompanhamento de regulamentações de proteção de dados, à colaboração com profissionais de segurança para identificar ameaças emergentes e à revisão constante de políticas internas. O design das ferramentas considera as restrições práticas do terreno: baixa conectividade, telefones antigos e dezenas de idiomas. Nada é desenvolvido sem que um humano possa auditar, modificar ou desligar o sistema, garantindo controle e responsabilidade.

Implicações para o Futuro e o Cuidado com o Próximo

A adoção criteriosa da IA no setor humanitário levanta questões sobre o futuro da ajuda e a equidade no acesso à tecnologia. Ao evitar a IA, as organizações correm o risco de deixar que as populações mais vulneráveis sejam as últimas a se beneficiar de avanços que já moldam outras esferas da sociedade. A decisão de não explorar ferramentas que poderiam transformar vidas – como identificar crianças desnutridas ou otimizar programas de tratamento – pode ser vista como uma falha ética, especialmente quando o auxílio é cortado. A IRC argumenta que, se a IA pode ajudar a resolver problemas humanitários complexos de forma mais eficaz, segura e transparente, o setor tem a obrigação de utilizá-la, e não de se desculpar por isso.

Essa postura pode estabelecer um novo padrão para a indústria, demonstrando que é possível aliar a vanguarda tecnológica a um compromisso inabalável com os direitos humanos e a dignidade. O desafio reside em equilibrar a urgência das necessidades com a prudência exigida pela tecnologia, garantindo que a busca por eficiência não comprometa a segurança ou a autonomia dos indivíduos assistidos. A experiência da IRC sugere que o caminho para a IA responsável passa pela transparência, pela evidência empírica e por uma vigilância constante, adaptada às realidades de quem mais precisa.

O caminho a seguir para o setor humanitário é claro, embora repleto de desafios. A inteligência artificial, com suas promessas e perigos inerentes, não é uma panaceia, mas uma ferramenta poderosa cujo uso exige uma sabedoria que vai além da mera capacidade técnica. A questão fundamental que permanece é se a comunidade global de ajuda conseguirá não apenas dominar essa tecnologia, mas também moldá-la para servir de forma ética e eficaz às populações mais marginalizadas do planeta, garantindo que o "bem" da IA seja acessível a todos, especialmente àqueles que mais sofrem. A jornada, que já começou, exige aprendizado contínuo e um compromisso inabalável com a proteção daqueles que menos podem se proteger.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune