A inteligência artificial (IA) está evoluindo de uma ferramenta para otimizar operações para um catalisador de transformações profundas no próprio modelo de negócios. A constatação crescente é que a simples adoção de novas tecnologias, como agentes de IA, não se traduz automaticamente em ganhos de produtividade, eficiência ou resultados tangíveis. O impacto real da IA depende intrinsecamente de como ela é integrada ao tecido empresarial, respeitando e, ao mesmo tempo, desafiando as particularidades de cada organização.

Cada empresa possui um conjunto único de processos, desafios, dados e objetivos. Portanto, a maneira como a IA é implementada deve ser igualmente singular. A alteração na forma de produzir e operar exige, fundamentalmente, uma reavaliação da própria maneira de fazer negócios. Historicamente, estruturas organizacionais, responsabilidades e processos decisórios foram concebidos para um cenário onde informação, análise e execução eram sequenciais e dependiam de equipes e sistemas bem definidos. A IA, no entanto, subverte essa lógica ao processar vastos volumes de dados, executar tarefas complexas, interagir com múltiplos sistemas e, cada vez mais, tomar decisões dentro de parâmetros estabelecidos.

Quando uma tecnologia com tal capacidade de redefinir o trabalho emerge, a adaptação superficial de algumas etapas de processo raramente capta todo o seu potencial. A mudança precisa permear a estrutura fundamental de como a organização opera. Essa transformação é comparável ao impacto da eletricidade nas fábricas, como apontado por Zag Engler no portal CIO. Inicialmente, a substituição de motores a vapor por elétricos gerou ganhos limitados, pois a organização fabril permanecia atrelada à lógica anterior. O salto de produtividade ocorreu quando as fábricas foram redesenhadas em torno das novas possibilidades oferecidas pela eletricidade. A IA apresenta um dilema similar: o que precisaria ser repensado em uma empresa se ela fosse concebida a partir das capacidades da inteligência artificial desde o princípio?

Em vez de questionar onde uma nova ferramenta pode ser adicionada, a abordagem deve focar na identificação de gargalos, na revisão de responsabilidades, na redistribuição de decisões e na redefinição da relação entre humanos e tecnologia. A urgência para essa discussão se intensifica à medida que entramos em uma fase crucial da adoção e aprendizado da IA. A consultoria Gartner projeta que, até 2028, uma empresa média global da Fortune 500 poderá empregar mais de 150.000 agentes de IA, um salto expressivo em relação aos menos de 15 previstos para 2025. Em um futuro próximo, a IA deixará de ser um projeto isolado para se disseminar por milhares de pontos operacionais.

A governança de IA emerge como um pilar essencial nesse cenário. Quando diferentes áreas adotam ferramentas de IA de forma autônoma, surgem soluções para necessidades específicas, mas também um ecossistema difícil de coordenar. Essa proliferação descontrolada, conhecida como "AI agent sprawl", pode levar a inconsistências, desinformação e compartilhamento excessivo de dados. Adicionalmente, a "shadow AI" – o uso de ferramentas não homologadas – acentua riscos de segurança, privacidade e conformidade, com relatos de que 38% dos trabalhadores compartilham informações confidenciais com IAs públicas, segundo a IBM.

Para mitigar esses riscos, a governança deve ser incorporada desde o início do processo de implementação. É crucial definir quais ferramentas podem ser usadas, quais dados podem ser acessados, como os resultados serão avaliados e quem é responsável por cada aplicação. A clareza sobre o propósito estratégico e os resultados esperados é fundamental para orientar a adoção da IA, garantindo que ela sirva como um motor de transformação do negócio, e não apenas como uma camada de automação operacional.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Canaltech