A consultoria espanhola RocaSalvatella, especializada em transformação digital, anunciou uma reorganização completa de sua estrutura e cúpula diretiva. A companhia está se reconfigurando em torno de seis “Centros de Excelência”, um movimento que visa, segundo a própria empresa, priorizar a especialização. Jordi Asensio assume como diretor de Operações e Imma Haro como diretora de Negócio.

A mudança, no entanto, é mais profunda do que uma simples dança das cadeiras. A leitura aqui é que a onipresença da inteligência artificial está forçando o setor de consultoria a abandonar o discurso genérico de “transformação digital” em favor de uma abordagem mais técnica e verticalizada. A própria RocaSalvatella afirma que a IA será incorporada na “essência, processos e portfólio” de seus novos centros, um sinal claro de que a tecnologia deixou de ser um tópico para se tornar a fundação do serviço.

Do digital ao inteligente

Por mais de uma década, o termo “transformação digital” foi o carro-chefe de consultorias em todo o mundo, do Brasil à Europa. O conceito, propositalmente amplo, permitia vender desde a implementação de um e-commerce até a reestruturação de processos internos. Agora, a IA generativa e outras tecnologias correlatas estão comoditizando parte desse trabalho e exigindo um novo nível de profundidade técnica.

A criação dos Centros de Excelência pela RocaSalvatella é uma resposta direta a essa pressão. A nomeação de Asensio para liderar as áreas de Tecnologia, Dados e Inteligência Artificial, além da eficiência operacional, indica que a capacidade de execução técnica está sendo elevada ao mesmo patamar da estratégia. O valor não está mais apenas no roadmap, mas na capacidade de construir e implementar soluções inteligentes de forma ágil.

O espelho para o mercado

A reorganização da empresa espanhola serve como um estudo de caso para o que deve se tornar a norma no setor. Grandes e pequenas consultorias, incluindo as que operam no Brasil, enfrentam o mesmo dilema: como se manter relevante quando os clientes não querem mais apenas apresentações, mas algoritmos funcionais? A resposta parece estar na especialização e na integração nativa da IA na oferta de serviços.

O modelo de consultoria generalista, que vende horas de especialistas para pensar em problemas de forma abstrata, está sob ameaça. A nova estrutura da RocaSalvatella sugere um futuro onde as consultorias se assemelham mais a “tech services”, com equipes multidisciplinares focadas em entregar produtos e soluções, não apenas diagnósticos.

O movimento da RocaSalvatella não é um evento isolado, mas um sintoma da maturação do mercado de tecnologia. A questão para o setor não é mais se a IA vai mudar o jogo, mas quão rápido as empresas conseguirão se adaptar a um tabuleiro onde as regras são reescritas por algoritmos.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España