A inteligência artificial (IA) tem o potencial de transformar radicalmente a prática jurídica, mas a forma como esse impacto se manifestará na rotina dos advogados ainda gera discussões. Anna Amoedo, executiva da Harvey, startup de IA para o setor jurídico, avalia que, ao contrário do que se poderia esperar, a tecnologia pode levar os profissionais a trabalhar mais, e não menos. O paradoxo reside no ganho de produtividade: se uma tarefa que antes demandava dez horas passa a ser concluída em três com o auxílio da IA, a questão central é como essa eficiência será repassada e monetizada.

O modelo de cobrança por hora, predominante no mercado, cria um dilema. A expectativa inicial de redução da jornada de trabalho pode ser frustrada pela tendência de absorver mais demandas. Segundo Amoedo, a história das revoluções tecnológicas mostra que, em um primeiro momento, o tempo liberado pela automação é frequentemente convertido em maior volume de trabalho. Essa dinâmica, observada inclusive no mercado norte-americano, também se apresenta no Brasil, onde a precificação por hora ainda é forte.

Três Caminhos para o Tempo Liberado

A executiva da Harvey delineia três cenários possíveis para o tempo que a IA pode liberar. O primeiro, e menos provável, é simplesmente ter as horas restantes livres após a conclusão mais rápida de uma tarefa. O segundo, considerado o mais provável no curto a médio prazo, é usar essa eficiência para assumir um volume maior de trabalhos. Escritórios poderiam, assim, atender mais clientes e, potencialmente, aumentar seu faturamento sem necessariamente reduzir a carga horária de seus advogados. Esse cenário espelha o que ocorreu em revoluções tecnológicas anteriores, onde a produtividade ampliada levou a uma expansão da atividade.

O terceiro caminho, e talvez o mais inovador, envolve a criação de novas formas de monetização a partir da tecnologia. Escritórios, inclusive no Brasil, já começam a explorar a criação de produtos e fluxos de trabalho baseados em IA. A combinação do conhecimento jurídico especializado com ferramentas tecnológicas permite o desenvolvimento de ofertas de maior valor agregado, transformando o know-how interno em produtos comercializáveis. Esse movimento, que une tecnologia, conhecimento e produto, aponta para um futuro onde a IA não apenas otimiza serviços, mas também gera novas linhas de receita.

Pressão dos Clientes e Transparência

A discussão sobre o uso da IA e sua precificação já chega aos clientes. Roberta Cherman, sócia do escritório A&O Shearman, relata que grandes clientes já incluem em propostas de serviços perguntas detalhadas sobre como os escritórios utilizam a IA e como pretendem repassar os benefícios dessa tecnologia. A transparência se torna, assim, um elemento crucial. Os clientes buscam entender não apenas o uso da tecnologia, mas também como ela impacta o valor do serviço contratado e o modelo de precificação adotado. A expectativa é que, nos próximos anos, haja maior clareza sobre esses novos modelos, tanto para os escritórios quanto para seus contratantes.

Do Conhecimento ao Produto Jurídico

Escritórios como o A&O Shearman, embora não se considerem desenvolvedores de produtos de tecnologia, veem a IA como um complemento ao serviço jurídico. O modelo de negócio não é competir com a tecnologia, mas sim usá-la para aprimorar o serviço principal. Um exemplo prático é o licenciamento de produtos como o Contract Matrix, que demonstra como o conhecimento jurídico pode ser empacotado em soluções tecnológicas. Em situações que exigem velocidade ou escala, a estratégia adotada é frequentemente a de recorrer a fornecedores especializados em tecnologia, em vez de internalizar todo o desenvolvimento.

Marina Procknor, do Mattos Filho, ressalta a importância de uma base de dados organizada para que escritórios consigam transformar conhecimento em produtos de valor. Ela aponta que o mercado jurídico, especialmente no Brasil, ainda está em processo de desenvolvimento na organização e acesso a dados, quando comparado a outras indústrias. A adoção de tecnologia, portanto, está intrinsecamente ligada a discussões sobre cultura organizacional, governança de dados e a própria estrutura de gestão da informação.

Perguntas em Aberto sobre o Futuro

O impacto de longo prazo da IA na advocacia ainda reserva muitas incógnitas. Se no curto prazo o cenário mais provável aponta para um aumento do volume de trabalho, as transformações futuras podem redefinir completamente a estrutura e a remuneração do setor. Questões sobre a sustentabilidade da cobrança por hora em um ambiente de alta eficiência e a capacidade dos escritórios de inovar na criação de produtos de valor agregado permanecem em aberto. A adaptação a essa nova realidade exigirá flexibilidade e uma reavaliação constante dos modelos de negócio.

A forma como a inteligência artificial será integrada à prática jurídica moldará o futuro da profissão. A transição para um modelo que valoriza a eficiência e a inovação, sem necessariamente sacrificar a carga de trabalho, dependerá da capacidade dos escritórios de se adaptarem e de encontrarem novas formas de gerar valor para seus clientes. O mercado, impulsionado pela demanda e pela tecnologia, definirá os contornos desse novo paradigma. Com reportagem de Brazil Valley

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