A corrida pela adoção da inteligência artificial (IA) nas empresas tem gerado investimentos significativos em estruturas centralizadas e papéis de liderança. No entanto, muitas organizações ainda lutam para demonstrar resultados concretos. A questão central não é quem lidera a estratégia de IA, mas quem, de fato, "possui" a transformação em seu dia a dia. A resposta, segundo especialistas, reside em uma força de trabalho mais distribuída e proativa: os chamados "construtores" de IA.

O Papel dos "Construtores" de IA

Líderes podem traçar a direção estratégica e fornecer recursos, mas a complexidade das operações diárias e a infinidade de fluxos de trabalho impedem que uma única pessoa ou equipe tenha a visão completa necessária para otimizar cada processo. São os funcionários que executam essas tarefas diariamente que possuem o conhecimento granular para identificar gargalos e propor melhorias. Esses indivíduos, muitas vezes não pertencentes a cargos de tecnologia ou liderança sênior, são os "construtores": pessoas curiosas, próximas do trabalho, que buscam ativamente aprimorar fluxos sem esperar por permissão explícita. Um vendedor pode redesenhar o processo de acompanhamento para aumentar as taxas de fechamento, um contador pode automatizar a detecção de anomalias antes do fechamento mensal, ou um analista pode eliminar tarefas transacionais para focar em insights mais profundos. A transformação da IA, portanto, depende menos de quantos usuários acessam as ferramentas e mais de como eles as utilizam para repensar e redesenhar o trabalho.

Liderança com Guardrails, Não Obstáculos

A gestão dos riscos inerentes à IA é crucial, mas processos de aprovação excessivamente rígidos podem sufocar a inovação. A abordagem mais eficaz envolve estabelecer "guardrails" claros – diretrizes não negociáveis sobre segurança, privacidade, ferramentas aprovadas e supervisão humana – e, em seguida, conceder aos funcionários a autonomia para experimentar e construir. A simples permissão, contudo, não é suficiente. É fundamental criar um ambiente onde os "construtores" possam compartilhar suas experiências, sucessos e fracassos. A demonstração de como um colega eliminou horas de trabalho semanal pode ser um catalisador muito mais poderoso para a adoção da IA do que apresentações corporativas sobre seu potencial. Historicamente, a liderança identificava e implementava mudanças; com a IA, o modelo se inverte: a liderança deve criar um ecossistema onde os funcionários, conhecedores de seus processos, liderem a própria transformação do trabalho.

Métricas que Importam e o Benefício Mútuo

A mensuração da transformação da IA frequentemente se concentra em métricas de atividade, como logins e licenças, em vez de resultados tangíveis. O impacto real se manifesta em ganhos de produtividade, como a redução de prazos, a otimização de margens ou a liberação de capacidade para trabalhos de maior valor. As métricas mais significativas já estão presentes nos indicadores estratégicos das empresas, como crescimento de receita, expansão de margens, satisfação do cliente (NPS) e eficiência operacional. Paralelamente, é essencial que a adoção da IA também beneficie a carreira dos funcionários. Ao capacitá-los com novas habilidades em IA, as empresas não apenas aumentam a produtividade, mas também criam oportunidades de desenvolvimento profissional, garantindo que a força de trabalho evolua junto com as tecnologias e as demandas do mercado. A transformação da IA deve ser uma via de mão dupla, agregando valor tanto para o negócio quanto para o crescimento individual.

A Propriedade Distribuída da IA

Em última análise, a propriedade da transformação da IA é distribuída. A liderança detém a estratégia e a visão geral; as equipes de tecnologia, as plataformas e os guardrails de segurança. Mas a execução e a inovação contínua residem nos "construtores" – os funcionários que, no dia a dia, identificam e implementam as mudanças necessárias para que a IA gere valor real. Essa abordagem descentralizada, focada em capacitar quem está mais próximo do trabalho, é o que diferencia a mera adoção de ferramentas da verdadeira transformação impulsionada pela inteligência artificial.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fast Company