O 250º aniversário de fundação dos Estados Unidos é um marco que convida à reflexão sobre o passado e o futuro da nação. Em um cenário onde a busca por "tornar a América grande novamente" é proeminente, a questão "grande para quem?" se impõe. A história educacional americana para pessoas negras é marcada por segregação, estruturas precárias e desprezo. As primeiras leis anti-alfabetização no século XIX tornavam ilegal que negros aprendessem a ler e escrever, um legado que ecoa até hoje em disparidades crônicas. A autora, de uma geração livremente nascida, argumenta que a América nunca foi plenamente grande, mas sim em uma "marcha constante" rumo a uma união mais perfeita, especialmente na educação.
A convergência entre tecnologia e um ressurgimento do preconceito racial na educação apresenta um momento singular. Ferramentas tecnológicas, como calculadoras, tablets e laptops, foram repetidamente apresentadas como catalisadoras de melhorias educacionais. Contudo, a realidade demonstra que, mesmo no século XXI, menos de 40% dos estudantes americanos do 12º ano são proficientes em leitura básica, com disparidades raciais persistentes. A combinação da ferocidade do animus racial regressivo com o entusiasmo pela IA, no contexto de um marco nacional, torna essa confluência particularmente significativa e, para a autora, "enraigadora e aterrorizante".
A Promessa e a Realidade da IA na Educação
As ferramentas habilitadas por IA já estão transformando o ensino e a aprendizagem. Escolas inteiras baseadas em IA e tutores virtuais prometem personalizar a instrução, tornando o processo mais eficiente e eficaz. Estudantes podem realizar tarefas com menos instrução direta, apenas com prompts. As empresas de Big Tech e edtech promovem essas inovações como revolucionárias, capazes de "desbloquear o potencial da educação" e "transformar a instituição escolar". No entanto, a pergunta central permanece: o que essas ferramentas fazem para alterar a estrutura fundamental da educação americana? Elas conseguem quebrar a correlação perene entre raça e desempenho acadêmico, ou raça e a qualidade das escolas frequentadas pelos alunos? Uma escola eficiente em IA em um estado que baniu o ensino de Estudos Afro-Americanos Avançados, por exemplo, ensinaria eficiência em quê? Como a aplicação de IA afeta os resultados em escolas profundamente segregadas? As promessas de fechar lacunas e melhorar a experiência para todos os alunos precisam ser examinadas criticamente.
O Legado da Segregação e o Risco da "Escravidão Digital"
A autora contrapõe a narrativa tecnológica com a história de segregação e preconceito nos EUA. O "assalto" contra a educação para pessoas negras, desde as leis anti-alfabetização até a segregação de jure e de facto, moldou a educação americana. A IA, embora apresentada como uma solução, pode se tornar um véu que desvia a atenção do "assalto lento e constante dos demônios raciais da América". O entusiasmo em torno da IA, segundo a autora, pode mascarar a negligência em relação às lutas por justiça educacional. A ascensão da Big Tech nas últimas décadas, com a popularidade da ciência da computação e das STEM, criou uma nova elite e uma percepção de que habilidades tecnológicas equivalem a riqueza e poder. Contudo, essa ascensão ocorreu em paralelo ao ataque à ação afirmativa. Agora, com as oscilações no mercado de trabalho de tecnologia, as premissas de duas décadas estão sendo abaladas. A autora alerta para o risco de uma "escravidão digital", onde a resistência ao progresso negro se manifesta de formas novas e implacáveis.
Implicações para um Futuro Incerto
A rápida sucessão de superintendentes em distritos urbanos (2,7 anos em média, 18 meses para mulheres negras) evidencia a falta de liderança consistente necessária para transformações significativas. As alegações de que a IA e a literacia em IA serão transformadoras para estudantes negros e fecharão lacunas carecem de "memória" histórica. Apenas um combate explícito por justiça educacional pode alcançar esses objetivos. A autora questiona a hipocrisia de líderes de tecnologia que professam ajudar a educação, mas permanecem passivos diante de injustiças raciais. Essa hipocrisia tem raízes profundas na história americana, exemplificada pelas contradições da Constituição, que declarava "todos os homens criados iguais" enquanto incluía a cláusula dos "três quintos". As promessas de equidade racial feitas pela Big Tech após o assassinato de George Floyd foram rapidamente abandonadas, revelando um "autointeresse" subjacente.
Perguntas em Aberto e o Chamado à Discernimento
A "memória" é apresentada como âncora para o discernimento, permitindo distinguir promessas vazias de bases sólidas. As "brilhantes alegações" sobre o que a IA na educação pode fazer, oferecidas por aqueles que abandonaram a luta por justiça em momentos cruciais, não são essas bases sólidas. A autora conclui que a busca por soluções rápidas e transformações em sete passos ignora a complexidade do problema educacional e racial nos EUA. A questão não é se a IA pode melhorar a eficiência, mas se ela será usada para perpetuar ou para desmantelar as estruturas de desigualdade que definem a história americana. O momento atual exige convicção e coragem para defender os princípios fundadores da nação, de forma que ela possa, de fato, se tornar "grande" para todos os seus cidadãos.
A autora, em trecho de seu livro "The Bullwhip's Algorithm: Artificial Intelligence and America’s Racial Caste System", nos convida a olhar além do fascínio tecnológico e confrontar as injustiças históricas que a IA pode tanto mitigar quanto agravar. A verdadeira revolução educacional, segundo ela, reside na luta por justiça e equidade, não apenas na adoção de novas ferramentas.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Lit Hub


