O Ibovespa, principal índice da bolsa brasileira, parece operar em uma realidade própria. Nesta segunda-feira (31), enquanto os mercados americanos recuavam sob o temor da inflação, a B3 engatou sua nona alta consecutiva, com um avanço de 1% que levou o índice aos 177.418 pontos. O movimento destoa do sentimento global de aversão ao risco.
A explicação para esse descolamento está em uma combinação de fatores eminentemente locais. De um lado, o motor das commodities, com a Petrobras em forte alta. De outro, a interpretação que o mercado financeiro faz do acirramento no cenário eleitoral. A tese aqui é que a bolsa brasileira dança, por enquanto, conforme a música tocada por seus pesos-pesados e pelas urnas.
O motor de commodities e finanças
Não é segredo que o Ibovespa tem alta concentração. A carteira teórica do índice tem cerca de 50% de seu peso em Vale, Petrobras e nos grandes bancos. Nesta segunda, a petroleira foi a protagonista: suas ações preferenciais (PETR4) dispararam 3,38%, na esteira da alta do petróleo no mercado internacional. O setor financeiro acompanhou, com o índice IFNC subindo 1,24%, puxado pelo Banco do Brasil (+2,83%).
Essa composição explica por que o Ibovespa pode se dissociar de índices como o Nasdaq, mais exposto a empresas de tecnologia. Enquanto o humor global depende de juros e crescimento, o humor local pode ser calibrado pelo preço do barril de petróleo e pela saúde do crédito doméstico. A queda de 0,42% da Vale, mesmo neste cenário, mostra que o driver do dia foi específico do setor de óleo e gás, e não um rali generalizado de commodities.
A aposta eleitoral
O outro componente da alta é mais subjetivo: a política. Segundo reportagem do Money Times, que compilou os dados do pregão, parte dos investidores reagiu positivamente às pesquisas recentes, que mostram uma disputa acirrada pela presidência. Levantamentos como o da AtlasIntel/Bloomberg e BTG Pactual/Nexus apontam um cenário competitivo entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, com empate técnico em um dos cenários.
A leitura do mercado, conforme um analista ouvido pela publicação, é que a percepção de uma disputa mais renhida favorece um candidato mais alinhado às suas pautas. Esse otimismo de curto prazo, que também ajudou na queda do dólar para R$ 5,18, revela a faca de dois gumes do descolamento: a mesma concentração que protege o índice de certas turbulências externas o torna extremamente vulnerável a ruídos e reviravoltas domésticas.
A sequência de nove altas reflete a aposta de que os ventos locais sopram a favor, pelo menos por ora. A questão que permanece para o investidor é a sustentabilidade desse voo solo e o que acontece quando as narrativas doméstica e global, inevitavelmente, voltarem a se cruzar.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times





