A China não quer mais ser apenas a fábrica do mundo; agora, mira se tornar sua própria fazenda. O governo de Xi Jinping mobiliza um esforço estatal coordenado para alcançar a autossuficiência alimentar, tratando a questão não como um problema econômico, mas como um pilar de segurança nacional e geopolítica. A meta é clara: reduzir a dependência de importações de commodities agrícolas, uma vulnerabilidade estratégica em um cenário de tensões crescentes.
Para o Brasil, cuja balança comercial do agronegócio é profundamente atrelada ao apetite chinês, o movimento representa um risco existencial. A estratégia de Beijing, detalhada em uma análise do Brazil Journal, não é uma aposta especulativa, mas a aplicação de um manual que já garantiu ao país a liderança em setores como veículos elétricos e painéis solares. A questão para o produtor brasileiro não é mais se haverá impacto, mas qual sua magnitude e velocidade.
O manual industrial aplicado ao campo
A ofensiva chinesa opera em cinco frentes coordenadas, conforme detalhado no 15º Plano Quinquenal: uma visão estratégica que cascateia do governo central às províncias e estatais; um ecossistema competitivo de empresas e universidades; financiamento robusto via bancos de fomento e subsídios; suporte regulatório; e indução de demanda por meio de compras governamentais. O objetivo é replicar no campo a dominância industrial.
Os primeiros sinais já são visíveis. A Muyuan Foods, maior produtora de suínos do planeta, testa rações com menor teor de farelo de soja, reduzindo a inclusão da proteína de 13% para 6%. Segundo projeções da consultoria Systemiq, essa e outras medidas podem cortar a importação chinesa de soja em 25% até 2030. O impacto para o Brasil seria direto: quase 70% da soja brasileira, um comércio de mais de US$ 26 bilhões anuais, tem a China como destino.
Dependência estratégica, não acomodação
O déficit de US$ 120 bilhões na balança comercial agrícola da China é marginal perto de seu superávit industrial de US$ 1 trilhão. A motivação, portanto, é puramente estratégica. Em um mundo que usa semicondutores e terras raras como armas geopolíticas, depender de rivais como EUA e parceiros como o Brasil para alimentar 1,4 bilhão de pessoas é, na visão de Beijing, um inaceitável "calcanhar de Aquiles". Pascal Lamy, ex-diretor da OMC, sentenciou que "a era da China como principal compradora de produtos agrícolas do mundo pode estar chegando ao fim".
Pesquisadores do Insper Agro ponderam que o foco é reduzir vulnerabilidades, não buscar uma autarquia completa, atuando para elevar a produtividade doméstica e diminuir o uso de farelo. Analistas da StoneX veem a substituição de um fornecedor da escala do Brasil como um desafio, mas apontam para riscos como a diversificação de parceiros por Beijing. A visão mais assertiva, no entanto, vem de quem observa a China de perto. Ricardo Geromel, ex-trader em Hong Kong, alerta para a complacência brasileira: "O que os chineses mais querem é reduzir essa dependência. Eles vão investir mundos e fundos nessa revolução tecnológica."
Para muitos no agro brasileiro, a dependência chinesa é vista como um trunfo. A perspectiva de Beijing, no entanto, é outra. Como disse Geromel, a frase que se ouve por lá resume a urgência do plano: "Eles dizem que estão dependentes — não que são dependentes." A diferença semântica carrega o peso de uma estratégia que pode, em uma década, redesenhar o mapa da fome e da abundância no mundo.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Brasil Journal Tech





