Um relatório do IEEE, elaborado por 166 especialistas de 38 países, delineia um futuro próximo onde a inteligência artificial (IA) se torna a espinha dorsal de transformações tecnológicas profundas, especialmente nas áreas de saúde e energia. Segundo o "2030 Technology Megatrends Report", até 2028, a engenharia genética e a terapia gênica deverão ser aplicadas frequentemente no tratamento de diversas doenças. Essa projeção é sustentada pelos avanços em IA, que, segundo Dejan Milojicic, presidente do Comitê de Futuras Direções do IEEE, "não está mais operando em um vácuo; está agora profundamente conectada aos nossos sistemas de energia, infraestrutura e sistemas físicos".
A IA é identificada como a força motriz por trás de muitas das 30 tecnologias e cinco "megatendências" listadas no relatório. Essas megatendências representam mudanças tecnológicas com potencial para remodelar indústrias e a vida cotidiana por décadas. A velocidade com que a IA avança é descrita como superior a qualquer revolução tecnológica anterior, incluindo as industrial, elétrica e digital, transformando-a em uma infraestrutura de propósito geral. No entanto, essa evolução não vem sem desafios. Especialistas alertam que a falta de infraestrutura computacional e fontes de energia adequadas são gargalos para a escalabilidade da IA, exigindo também uma reestruturação da força de trabalho.
Saúde Sob Nova Ótica da IA
Na área da saúde, a medicina personalizada surge como a tecnologia de maior impacto potencial, com uma pontuação de 4.93 em 5. O relatório atribui essa proeminência aos avanços impulsionados pela IA em diagnósticos personalizados e tratamentos terapêuticos, muitos dos quais originados em startups de biotecnologia inovadoras. A previsão é que, em até dois anos, a engenharia genética e a terapia gênica se tornem ferramentas terapêuticas corriqueiras. Em até cinco anos, diagnósticos mais precoces de doenças sairão dos laboratórios para a prática médica diária. Paralelamente, espera-se a capacidade de fabricar proteínas sintéticas — moléculas criadas do zero para desempenhar funções específicas no corpo, como combater tumores ou suprir enzimas ausentes.
Energia e IA: Uma Demanda Crescente
O relatório também destaca a crescente demanda de energia pela IA, que já supera a capacidade do setor energético de acompanhar. A infraestrutura tecnológica, incluindo data centers, redes e hardware computacional, consome cerca de 10% da eletricidade global. Os especialistas preveem que, em dois a três anos, o armazenamento de energia dobrará em países desenvolvidos. Milojicic observa que o setor de energia tem sido relativamente estagnado, com poucas inovações significativas desde os tempos de Thomas Edison e Nikola Tesla. A disparidade entre a agilidade dos data centers, que podem escalar em milissegundos, e a lentidão do setor de energia, que leva meses para se ajustar, exige uma reavaliação governamental sobre geração de energia para atender à demanda futura. O paradoxo de Jevons, que sugere que ganhos de eficiência tendem a aumentar o consumo total, é citado como um fator a ser observado: à medida que a eficiência dos chips de IA melhora, mais hardware será utilizado para construir modelos de IA cada vez maiores, potencialmente esgotando a capacidade das redes elétricas.
IA Física e os Desafios de Implementação
A "IA Física", que engloba sistemas embarcados em máquinas capazes de interagir com o mundo — como robôs e veículos autônomos — é outra área de rápido avanço. Originalmente denominada "hiperautomação e robótica", essa categoria combina automação de processos orientada por software com máquinas físicas. O sucesso a longo prazo dessas tecnologias, contudo, dependerá não apenas das capacidades técnicas, mas também da atenção à relação humano-IA. Fatores como confiança, segurança, explicabilidade e políticas públicas serão determinantes para a escalabilidade das tecnologias apoiadas por IA. A presidente e CEO do IEEE, Mary Ellen Randall, enfatiza que "a confiança, a segurança e a conexão humana devem guiar cada grande avanço na próxima década".
As implicações para o futuro são vastas, exigindo uma adaptação contínua. A necessidade de infraestrutura computacional e energética robusta, aliada à requalificação da força de trabalho, são pontos cruciais. A forma como empresas e governos gerenciarão a integração da IA, equilibrando inovação com riscos, definirá o ritmo e a direção das transformações tecnológicas que moldarão as próximas décadas, com a saúde e a energia na linha de frente dessas mudanças.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · IEEE Spectrum





