A escassez de terrenos em bairros nobres de São Paulo tem levado incorporadoras a buscar alternativas menos convencionais, como a aquisição de imóveis pertencentes à Igreja Católica. No entanto, o que para o setor imobiliário pode ser uma oportunidade de negócio, para a Igreja se traduz em um processo de negociação intrincado e demorado, que pode se estender por meses e até anos, envolvendo uma complexa hierarquia e, em alguns casos, a aprovação final do Vaticano.

A dificuldade em consolidar áreas para novos empreendimentos na capital paulista é um problema crônico. Em regiões como a Vila Nova Conceição, a aquisição de um terreno geralmente exige a negociação individual com diversos proprietários de casas, lojas e pequenos edifícios. Em contraste, propriedades de igrejas, conventos e colégios religiosos, muitas vezes construídos há décadas, ocupam extensas áreas em zonas já consolidadas, representando uma oportunidade rara de consolidar grandes lotes.

O Longo Caminho da Aprovação

Uma incorporadora que buscava um terreno na Vila Nova Conceição se deparou com essa realidade ao tentar adquirir uma antiga igreja. A proposta era financeiramente atraente, incluindo não apenas o pagamento pelo imóvel, mas também a construção de um novo templo nas proximidades. O acordo, no entanto, precisou percorrer uma longa cadeia de aprovação: começou com o padre da paróquia, passou pelo bispo da arquidiocese e, por fim, chegou a Roma. Embora o padre e o bispo tenham concordado, a autorização final não veio do Vaticano, segundo relatos de executivos envolvidos na negociação. Essa lentidão, embora frustrante, é vista como um reflexo da natureza conservadora e estruturada da Igreja, que prioriza a preservação de seu patrimônio e a continuidade de suas atividades pastorais.

Patrimônio Imobiliário e Estratégias de Venda

O patrimônio imobiliário da Igreja Católica, acumulado ao longo de séculos através de doações e aquisições, é vasto e diversificado, incluindo propriedades residenciais, comerciais e terrenos. Contudo, nem todas essas propriedades estão disponíveis para venda ou desenvolvimento. Muitas geram renda para a manutenção das atividades religiosas e sociais, ou são mantidas por razões históricas e espirituais. Executivos do setor imobiliário relatam que mesmo imóveis que já não abrigam atividades religiosas há décadas, como instituições que foram dessacralizadas, passam por rigorosos processos de compliance. A Igreja busca garantir a procedência dos compradores e a adequação dos projetos, investigando a fundo as empresas interessadas e submetendo os negócios a conselhos internos. Essa cautela visa proteger o legado e os valores institucionais, mesmo quando o imóvel em questão já não possui função religiosa ativa.

Desafios e Perspectivas para Incorporadoras

A dificuldade em adquirir terrenos de igrejas em funcionamento é ainda maior. A Igreja, vista por alguns como a "maior multinacional do mundo", opera com uma lógica distinta da maximização de lucros típica do mercado imobiliário. O interesse em se desfazer de propriedades estratégicas é menor, e os processos de venda, mesmo quando internos e privados, exigem tempo e paciência. Para as incorporadoras, a espera pode chegar a um ano ou mais, como relatado por um CEO do setor. Em outra negociação com uma ordem religiosa, um executivo levou cerca de seis meses para concluir cada uma de duas transações. Mesmo com propostas de pagamento à vista, a instituição realizou avaliações detalhadas do imóvel e investigou a fundo a empresa compradora, demonstrando um processo de diligência que vai além da mera transação financeira.

O Valor da Paciência e da Conformidade

A negociação de terrenos com a Igreja Católica em São Paulo, portanto, exige das incorporadoras uma dose extra de paciência, resiliência e conformidade. A burocracia inerente à estrutura eclesiástica, aliada à necessidade de aprovações em múltiplos níveis hierárquicos, transforma o que seria uma transação imobiliária em um projeto de longo prazo. A recompensa, contudo, pode ser a aquisição de um ativo de grande valor em uma localização privilegiada, algo cada vez mais raro na metrópole. A complexidade do processo, no entanto, reitera a necessidade de as empresas estarem preparadas para um diálogo extenso e para a demonstração de solidez e confiabilidade, valores que a Igreja preza em suas negociações.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Metro Quadrado