A imagem clássica do Iluminismo, com sua celebração da razão e do progresso, frequentemente pinta nossos antepassados como seres dominados pela superstição e pelo irracional. Essa narrativa, contudo, é um tanto quanto simplista, sugere Malcolm Gaskill, historiador e autor de "The Ruin of All Witches". Em um ensaio reflexivo, ele desafia a noção de que a história humana é uma marcha linear de escuridão para a luz, argumentando que a complexidade das crenças e a capacidade humana de raciocínio, mesmo em contextos pré-modernos, são mais sutis e persistentes do que geralmente admitimos. A visão de que o passado era um reino de ignorância, onde qualquer fenômeno inexplicável era atribuído ao sobrenatural sem questionamento, falha em capturar a diversidade de opiniões e o ceticismo que coexistiam com crenças mais amplas sobre a interconexão entre o mundo visível e o invisível.
A porosidade do mundo premoderno
Para Gaskill, a principal diferença entre nossa compreensão do mundo e a de nossos antepassados não reside na ausência de raciocínio, mas em uma premissa fundamentalmente distinta sobre a natureza da realidade. "O mundo deles – o mundo visível, tangível – era muito mais poroso para o mundo invisível", afirma o historiador. Essa percepção de um universo onde o natural e o sobrenatural frequentemente se entrelaçavam moldava a maneira como as pessoas interpretavam eventos cotidianos, desde doenças e desastres naturais até fenômenos celestes. Não se tratava de uma completa ausência de questionamento, mas sim de um quadro conceitual que aceitava a influência de forças ocultas como parte integrante da existência. A "puzzlement" (perplexidade) era, talvez, o estado mais comum, mas a suposição subjacente de um mundo invisível com o qual o nosso interagia era um consenso quase universal.
O Iluminismo e a construção de um "outro"
A narrativa iluminista, ao traçar uma linha divisória nítida entre a razão e a superstição, serviu a um propósito: glorificar o próprio Iluminismo e, por extensão, a modernidade. Ao pintar os antepassados como "benighted forebears" (precursores obscurecidos), os filósofos iluministas e racionalistas do século XIX buscavam realçar o seu próprio progresso intelectual. Gaskill contesta essa visão, argumentando que nossos ancestrais possuíam faculdades mentais semelhantes às nossas, embora operassem com um conjunto de conhecimentos e um contexto cultural muito diferentes. A tendência humana de buscar padrões e criar narrativas para dar sentido ao caos, um fenômeno conhecido como pareidolia, sempre existiu. A diferença reside em como esses padrões eram interpretados e em quais explicações eram consideradas plausíveis dentro de um determinado quadro cultural e religioso.
Nuances nos julgamentos de bruxaria
Um dos campos onde essa visão simplista é mais evidente é nos julgamentos de bruxaria. A imagem popular, muitas vezes retratada em caricaturas como a do Monty Python, sugere um processo irracional e apressado onde qualquer acusação levava à condenação imediata. No entanto, a realidade histórica, segundo Gaskill, é mais complexa. Embora a crença na bruxaria fosse disseminada, os julgamentos eram eventos relativamente raros e, em muitos casos, os jurados demonstravam um discernimento surpreendente. A ideia de que os juízes e jurados eram meros executores de acusações infundadas ignora a resistência e o ceticismo que frequentemente surgiam. Em muitos casos na Inglaterra, por exemplo, a falta de evidências conclusivas levava os jurados a não condenar, mesmo diante de acusações graves. A resistência a uma condenação sem certeza absoluta revela um nível de racionalidade prática e um senso de justiça que contrariam a imagem de uma sociedade totalmente dominada pelo pânico irracional.
A persistência da irracionalidade e o contexto brasileiro
O Iluminismo, apesar de seus avanços, não erradicou a "superstição" ou a irracionalidade. Eventos como a Primeira Guerra Mundial, com sua brutalidade e o consequente abalo na confiança no progresso científico e racional, levaram a um ressurgimento de práticas espirituais e religiosas, como o espiritualismo e novas formas de religiosidade. Essa tendência de buscar consolo e sentido em crenças não-racionais em tempos de crise social e emocional não é exclusiva do passado. Gaskill sugere que a capacidade humana para o "comportamento louco, coletivo e emocional" persiste. Um exemplo contemporâneo, embora controverso, seria a polarização e as decisões emocionais em processos políticos, que podem ser interpretadas como um eco de dinâmicas irracionais. Embora o Brasil não tenha sido o foco direto desta análise, a discussão sobre a complexidade das crenças e a persistência de padrões irracionais em sociedades modernas pode oferecer paralelos interessantes para entender fenômenos políticos e sociais no país, onde a influência de discursos emocionais e narrativas que apelam para o irracional frequentemente se manifestam. A "era da credulidade", portanto, pode não ter sido um capítulo fechado do passado, mas uma dimensão da experiência humana que continua a nos desafiar.
Perguntas em aberto
A persistência de crenças e comportamentos que desafiam a lógica racional levanta questões sobre a própria natureza da racionalidade e o que significa ser humano. Se nossos antepassados não eram tão irracionais quanto pintados, e se a "superstição" continua a encontrar terreno fértil em sociedades modernas, onde reside então a verdadeira linha divisória? Será que a razão é uma fina camada sobre um substrato mais profundo de emoções e instintos que se manifestam em momentos de pressão? A lição de Gaskill parece ser que a história humana não é uma progressão linear de ignorância para sabedoria, mas um ciclo contínuo de complexidade, onde a busca por sentido, mesmo que por caminhos que nos pareçam estranhos, é uma constante.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Persuasion





