A artista IM Youngzoo inaugurou a exposição "The Late" no Space ZeroOne, no Brooklyn, em uma mostra que desafia a percepção do espectador sobre a convergência entre espiritualidade e tecnologia. Em cartaz até 25 de julho, o projeto é o resultado de uma década de experimentações que conectam tradições ancestrais, como os túmulos vazios do folclore coreano, a sistemas contemporâneos como NFTs, realidade virtual e inteligência artificial. Segundo reportagem da ARTnews, a obra central da exibição é composta por um sistema de sete canais de vídeo e um livro de 1.254 páginas que, juntos, formam um labirinto intelectual sobre a natureza da crença.
A premissa da exposição reside na investigação de um "ponto cego" tecnológico. Utilizando câmeras desenvolvidas para ambientes de realidade virtual, Youngzoo foca justamente nas distorções de luz que normalmente seriam editadas, transformando falhas técnicas em metáforas visuais. A leitura editorial aqui é que o trabalho não busca respostas definitivas, mas sim mapear como a tecnologia, ao tentar organizar o mundo, acaba por criar novas formas de desorientação e vazio existencial.
O encontro entre ritual e dado
O trabalho de Youngzoo propõe um paralelo entre a fé religiosa tradicional e a adesão cega a novas tecnologias. Ao incorporar conceitos como o Bardo — o estado de transição tibetano entre a morte e o renascimento — a artista sugere que vivemos um momento de suspensão similar diante da rápida evolução digital. A estrutura da exposição, com telas imersivas escondidas em nichos que exigem esforço físico do visitante, força uma desconexão com o mundo externo, replicando a sensação de perda de referências que caracteriza a era da informação.
A pesquisa da artista, que ela própria denomina "ficto-pesquisa", mistura etnografia, estudos religiosos e referências à teoria da "mídia morta" de Bruce Sterling. Ao recusar uma narrativa linear, Youngzoo reflete a própria fragmentação do conhecimento na internet. O uso de elementos como o jogo Go, que ganhou destaque global após a derrota do campeão Lee Sedol para o AlphaGo da Google em 2016, serve como um microcosmo para a complexidade do universo, onde as possibilidades superam a capacidade humana de processamento.
Mecanismos de desorientação
A desorientação em "The Late" não é um acidente, mas um mecanismo central. A artista utiliza a tecnologia para subverter a própria ideia de orientação, como exemplificado na obra que apresenta uma bússola flutuando caoticamente sobre um tabuleiro de Go. Este movimento sugere que, à medida que os paradigmas espirituais perdem força, a tentativa de encontrar um norte através de ferramentas tecnológicas torna-se uma tarefa perigosa e, por vezes, ilusória.
Vale notar que a obra também aborda a dimensão pessoal da crença. A artista narra experiências de traição em contextos espirituais, como um golpe sofrido em uma viagem à Índia, para ilustrar como a busca por sentido pode ser facilmente manipulada. A "pesquisa" de Youngzoo, portanto, funciona como um espelho para a sociedade atual: um acúmulo de informações e evidências que, embora pareçam convincentes, falham em oferecer o conforto ou a verdade que os indivíduos buscam desesperadamente.
Implicações para o espectador
O projeto levanta questões sobre o papel da curadoria de informações na vida moderna. Para o público, a exposição funciona como um convite para refletir sobre quais "fontes" de verdade estamos utilizando para navegar em um mundo incerto. A obra sugere que, assim como o espectador se sente perdido na exposição, a sociedade enfrenta uma dificuldade crescente em distinguir o que é um fato sólido do que é uma construção poética ou conspiratória, especialmente quando mediada por interfaces digitais.
Para o ecossistema da arte contemporânea, o trabalho de Youngzoo destaca uma tendência crescente de artistas que atuam como pesquisadores interdisciplinares. Ao fundir o rigor acadêmico com a subjetividade da arte, a artista desafia os limites do que pode ser considerado "conhecimento" em um ambiente saturado por dados. Essa abordagem ressoa com as tensões atuais entre a objetividade algorítmica e a necessidade humana de significado transcendental.
Futuro e incertezas
O que permanece em aberto é a capacidade de tais obras de arte em promover uma mudança real na percepção pública sobre a tecnologia. Enquanto a exposição oferece uma crítica sofisticada, a velocidade com que novas ferramentas de IA e VR são integradas ao cotidiano pode superar a capacidade de reflexão crítica da sociedade.
O desdobramento dessa pesquisa nos próximos anos será observar se o "vazio" identificado por Youngzoo será preenchido por novas formas de ritual ou se caminhamos para uma fragmentação ainda maior das verdades compartilhadas. A obra permanece, em última análise, como um registro da busca humana por algo que, talvez, nunca tenha estado lá. Com reportagem de Brazil Valley
Source · ARTnews





