As imagens são um retrato da fragilidade. Paredes inteiras desabaram, expondo o interior do Museu de Arte de Pereira a uma vista panorâmica da cidade. Rachaduras em forma de X rasgam as galerias, e pinturas resistem, precariamente, em estruturas que ameaçam ceder. Do teto, trilhos de iluminação retorcidos e cabos elétricos pendem contra o céu. As fotos, publicadas por um curador local, documentam o impacto de um terremoto de magnitude 7.4 que atingiu o norte da Colômbia.

O desastre natural, contudo, apenas trouxe à superfície uma crise latente. Segundo uma reportagem da publicação especializada ARTnews, o tremor revelou a delicada situação financeira das instituições culturais colombianas. O museu de Pereira, o mais importante do chamado “eixo cafeeiro” do país, agora está fechado por tempo indeterminado, e a sua reconstrução é uma equação de múltiplas incógnitas, principalmente a política.

Um pilar em risco

Fundado em 1974 e rebatizado como museu em 1996, o Museu de Arte de Pereira não é apenas um prédio. É um ator central na descentralização da cena artística colombiana, historicamente concentrada em Bogotá, Medellín e Cali. Seu acervo de mais de 500 obras inclui nomes fundamentais da arte colombiana do século XX, como Oscar Muñoz e Beatriz González. Perder o museu, ou vê-lo inoperante por anos, significa um golpe na identidade cultural de toda uma região.

Uma primeira inspeção de engenheiros determinou que os danos foram “extensos, mas não estruturais”. As colunas e vigas principais resistiram. Ainda assim, a reconstrução de paredes e tetos será “muito complexa”, segundo um membro do conselho da instituição. O custo e o cronograma são desconhecidos, mas a principal fonte de recursos para a operação do museu sempre foi o financiamento público — municipal, estadual e federal.

Austeridade e escombros

É aqui que a tragédia natural encontra a turbulência política. O terremoto ocorreu poucos dias após a posse de um novo governo de direita na Colômbia, eleito com uma plataforma de cortes de 40% nos gastos públicos. Com o financiamento para a cultura já sofrendo reduções nos últimos anos, a perspectiva de um aperto fiscal ainda maior lança uma sombra sobre o futuro não apenas do museu de Pereira, mas de outras 13 instituições culturais danificadas na região.

O dilema é evidente nas palavras de Rosa Ángel, responsável pela resposta de emergência do museu: “A cidade está tentando resgatar pessoas dos escombros... mas também temos que lutar por nossa infraestrutura cultural”. A escolha entre a urgência humanitária e a preservação do patrimônio é sempre delicada. Para ela, no entanto, não há contradição. A cultura, afirma, “é o cimento que nos mantém unidos como sociedade”.

Enquanto a Colômbia se mobiliza para reconstruir casas e negócios, a questão que permanece é se este “cimento” será visto como material essencial para reerguer o país ou como um luxo a ser deixado para depois. A resposta definirá não apenas o destino de um edifício, mas a resiliência do tecido social que ele representa.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ARTnews