A tecnologia precisava de um toque de humanidade. Essa era a convicção que guiava o trabalho de Kit Fitzgerald, a artista visionária que dedicou sua vida a infundir na arte eletrônica a textura e a imprevisibilidade de uma pincelada sobre a tela. Fitzgerald faleceu aos 73 anos, vítima de um câncer, conforme anunciado por seu marido e parceiro criativo de longa data, Peter Gordon.

Formada como pintora, ela nunca abandonou essa sensibilidade. Em vez de se render à frieza do meio digital, ela o dobrou à sua vontade, tratando monitores e projeções como telas vivas. Seu trabalho era uma busca por cor vívida, luz dinâmica e gestos fragmentados, criando o que ela mesma descreveu como “tecnologia com humanidade”.

A Tela Eletrônica

No início dos anos 80, quando a videoarte ainda era um território marginal, Fitzgerald já era uma de suas principais exploradoras. Ao lado de John Sanborn, esteve entre os primeiros artistas comissionados pela PBS e pela BBC, levando a linguagem experimental para a televisão. A obra Interpolation (1979), adquirida pelo Metropolitan Museum of Art em 2023, fragmentava sons e imagens do cotidiano em uma cacofonia que parecia uma transmissão de outra dimensão.

Para Fitzgerald, o vídeo não era sobre contar uma história linear. “Não há um quebra-cabeça, não há um truque, é sobre si mesmo”, disse ela à MTV em 1982, comparando a experiência a uma sinfonia abstrata. Instituições como o MoMA e o Whitney Museum of American Art concordaram, incluindo seu trabalho em exposições seminais que ajudaram a canonizar o vídeo como uma forma de arte legítima.

A Arte como Diálogo

Sua inclinação para a colaboração era uma extensão natural de sua visão artística. Fitzgerald não criava em isolamento. A partir de 1984, ela e Gordon levaram suas produções para Tóquio, onde se apresentaram com Ryuichi Sakamoto, e para palcos em Nova York, em shows históricos com o baterista de jazz Max Roach. Sua arte era um diálogo constante com músicos, poetas e coreógrafos.

Essa natureza colaborativa, segundo Gordon, vinha de uma aversão à solidão. Vinda de uma família de dez irmãos, Fitzgerald prosperava na troca. Seu processo criativo não era uma imposição, mas uma escuta. Essa abordagem se traduzia na própria obra, que parecia conversar com a arquitetura de um espaço ou com a partitura de um músico, sem nunca se sobrepor.

Seu trabalho, refletiu Gordon, “não sobrepõe um artefato sobre a coisa real. É como ter uma conversa e ouvir o que eles têm a dizer — algumas pessoas apenas falam por cima da conversa. Kit sabia ouvir”.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ARTnews