O Imposto de Turismo Sostenible, cobrado nas Ilhas Baleares, passou por uma transformação radical na última década, abandonando sua função original de compensação ecosocial para se tornar um catalisador de competitividade industrial. Segundo estudo conduzido pelo Departamento de Geografia da Universitat de les Illes Balears em parceria com a Universidade de Surrey, a lógica de aplicação dos recursos foi alterada para priorizar o chamado crescimento verde.

A pesquisa, publicada na revista Annals of Tourism Research, analisou 297 projetos financiados entre 2016 e 2025, totalizando 845,8 milhões de euros. O levantamento revela uma divergência crescente entre as políticas públicas, focadas em infraestrutura e promoção turística, e as demandas da sociedade civil, que clamam por redistribuição econômica e limites claros à expansão do setor.

A mudança na lógica de aplicação

Nos primeiros anos de vigência, o imposto operava com um equilíbrio entre investimentos ambientais e medidas de impacto social, como o financiamento de habitação pública. No entanto, a análise dos dados mostra que esse perfil foi gradualmente substituído por projetos de eficiência e competitividade. A partir de 2023, essa tendência se consolidou com a eliminação de linhas de crédito voltadas ao setor habitacional, reforçando um modelo que prioriza a manutenção da oferta turística.

Para chegar a essas conclusões, os pesquisadores utilizaram uma metodologia que combinou inteligência artificial com revisão humana para processar grandes volumes de dados. A técnica permitiu classificar os projetos entre aqueles que seguem o modelo de crescimento verde e os que se alinham ao postcrecimiento, este último focado em respeitar os limites ecológicos do território e reduzir a pressão turística.

O mecanismo do crescimento verde

O conceito de crescimento verde, central na estratégia atual, baseia-se na premissa de que é possível expandir a atividade turística desde que acompanhada por inovações tecnológicas e ganhos de eficiência. Na prática, isso se traduz em investimentos em digitalização, energias renováveis e otimização de recursos, sob a crença de que a tecnologia é capaz de desacoplar o crescimento econômico do impacto ambiental.

Contudo, o estudo alerta que essa abordagem acaba por legitimar a expansão contínua do turismo sem questionar o volume total de visitantes. Ao adotar um vocabulário de sustentabilidade, as políticas públicas acabam por reforçar a lógica expansiva do modelo anterior, deixando em segundo plano a justiça social e a capacidade de carga do território, que são pontos centrais nas críticas da sociedade civil.

Tensões entre stakeholders

Existe uma tensão clara entre os objetivos de competitividade do setor privado e as necessidades de preservação ambiental da população local. Enquanto o setor turístico vê no imposto um meio de modernizar infraestruturas e manter a atratividade do destino, os residentes exigem políticas que mitiguem os efeitos negativos do excesso de visitantes, como o encarecimento da habitação e a degradação de recursos naturais.

Essa dinâmica não é exclusiva das Baleares e ressoa em diversos polos turísticos globais que enfrentam o dilema entre a dependência econômica do setor e a necessidade de sustentabilidade a longo prazo. A governança do imposto, portanto, torna-se o ponto nevrálgico: sem critérios redistributivos, o instrumento corre o risco de se tornar um mecanismo de subsídio indireto para a indústria turística, em vez de uma ferramenta de transformação urbana.

Perspectivas de governança

O futuro da gestão desses recursos permanece incerto. Os pesquisadores sugerem que, sem uma reforma na governança que inclua maior participação social e objetivos atrelados a limites ecológicos rígidos, o imposto continuará a reforçar o modelo que pretendia corrigir. A questão que permanece é se as autoridades locais estarão dispostas a sacrificar o crescimento imediato em nome da sustentabilidade real.

O debate sobre a eficácia dessas taxas deve se intensificar à medida que outros destinos turísticos europeus adotam estratégias semelhantes. Observar como a gestão do imposto evoluirá pode fornecer lições valiosas sobre a real viabilidade de conciliar a indústria do turismo com os limites planetários. Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España