O gesto de escrever, para Inés Bortagaray e Katya Adaui, raramente se isola em uma torre de marfim. Em um diálogo recente para o podcast Encuentros da MUBI, as duas escritoras latino-americanas exploram como o pensamento cinematográfico não apenas acompanha, mas molda ativamente suas construções literárias. Para Bortagaray, uruguaia cuja trajetória transita entre o roteiro e a ficção, o cinema oferece uma lente para observar a riqueza narrativa contida em eventos aparentemente menores. Já para a peruana Adaui, a influência da imagem parece residir na criação de atmosferas de desconforto palpável, onde o espaço doméstico torna-se um palco de tensões silenciosas e precisas.
A lente cinematográfica na literatura
O cinema, na visão compartilhada pelas autoras, funciona como um exercício de economia e foco. Bortagaray, premiada em Sundance por seu trabalho em "Mi amiga del parque", traz para a literatura a capacidade de extrair emoções profundas de vínculos interpessoais complexos. Ela argumenta que a adaptação de obras literárias — como o premiado "A Vida Invisível", baseado no livro de Martha Batalha — não é um processo de tradução literal, mas de reinterpretação visual. Esse fluxo, que vai da página para a tela e retorna para a escrita, permite que o autor compreenda a estrutura do olhar, aprendendo a selecionar o que deve ser mostrado e o que deve ser sugerido pelo silêncio.
A reescrita como revelação
Para Adaui, a reescrita é a etapa onde a linguagem se torna, simultaneamente, austera e visceral. Autora de "Geografía de la oscuridad", ela vê no processo de apagar e reformular uma busca constante pelo essencial, algo que ecoa o trabalho de montagem no cinema. Ao questionar a instituição da família e os espaços do cotidiano, a escrita de Adaui busca uma precisão que se assemelha à escolha de um plano cinematográfico. A reescrita, portanto, deixa de ser um mero ajuste técnico para se tornar um estágio revelador, onde o autor descobre as camadas ocultas de sua própria voz através da persistência.
Fronteiras entre linguagens
As implicações desse diálogo sugerem que a fronteira entre o literário e o cinematográfico é cada vez mais porosa. Enquanto Bortagaray expande sua atuação com adaptações como "La perra", de Pilar Quintana, Adaui mantém seu compromisso com a ficção que enrarece o comum. Ambas demonstram que o pensamento cinematográfico oferece ferramentas valiosas para a literatura contemporânea, permitindo que a escrita alcance uma dimensão sensorial muitas vezes negligenciada. O desafio, para ambas, reside em manter a integridade da palavra enquanto se absorve a potência da imagem.
O que resta na página
O futuro desses processos criativos permanece aberto, condicionado pela constante necessidade de reinvenção. Observar como essas autoras navegam entre a literatura e o cinema é, em última instância, um convite para reconsiderar o que define a narrativa em um mundo saturado de estímulos visuais. A pergunta que persiste, após o diálogo, é se a literatura ainda pode manter sua autonomia ou se ela está, irrevogavelmente, se tornando uma extensão da nossa percepção cinematográfica do mundo.
Ao final, o que se revela não é uma resposta definitiva, mas a constatação de que a escrita é um organismo vivo, que se alimenta de tudo o que observa, transforma e, por fim, decide esquecer. Com reportagem de Brazil Valley
Source · MUBI Notebook





