As ações do Inter (INTR) acumulam uma queda de 30% no ano, refletindo um cenário de desconfiança do mercado que se intensificou após a divulgação dos últimos resultados trimestrais. Em apenas três pregões, o papel chegou a recuar 23%, impulsionado por uma combinação de deterioração na qualidade do crédito e uma revisão nas metas de rentabilidade da companhia.
Segundo relatório do BTG, a gestão do banco digital, sediada em Belo Horizonte, buscou contornar o pessimismo em reuniões presenciais com analistas. A tese central da instituição financeira é que a reação do mercado foi exagerada e que o banco possui fundamentos sólidos para superar o atual ciclo de juros elevados.
Ajuste de expectativas e governança
O ponto de maior atrito entre o Inter e seus acionistas foi o adiamento da meta de ROE (retorno sobre o patrimônio líquido) de 30%. O prazo, antes fixado para 2027, foi estendido para 2030, sinalizando uma cautela maior quanto à velocidade de escala da rentabilidade. Essa mudança de rota gerou ruído, mas a administração defende que o foco atual é a sustentabilidade do crescimento em um ambiente macroeconômico mais restritivo.
Para o BTG, a postura da diretoria transmite confiança, sugerindo que o pior momento operacional já ficou para trás. O banco digital tem buscado ajustar seus modelos de análise de crédito e redirecionar a carteira para perfis de menor risco, uma resposta direta às falhas operacionais observadas recentemente no segmento de cartões e empréstimos para pessoas físicas.
Mecanismos de proteção contra juros
O BTG argumenta que o Inter não deve ser precificado apenas como uma fintech de alta volatilidade, dado que dois terços de sua carteira de crédito possuem garantias reais. Esse colchão de segurança, segundo os analistas, torna o modelo de negócio menos dependente de um cenário de juros baixos, permitindo que a empresa mantenha uma sensibilidade mais neutra à Selic.
Mesmo com a expectativa de juros terminais acima de 14% devido às pressões inflacionárias globais, o banco projeta um crescimento de receitas próximo a 20% ao ano. A estratégia envolve a expansão da margem financeira e o aproveitamento de programas de renegociação de dívidas, como o Desenrola 2.0, para recuperar provisões e normalizar fluxos de caixa.
Stakeholders e o mercado brasileiro
Para investidores, a tese de compra do BTG, com preço-alvo de US$ 9,86, implica um potencial de valorização de 73,5%. Esse otimismo contrasta com a cautela do mercado, que ainda monitora de perto se a qualidade dos ativos do Inter conseguirá se estabilizar trimestre após trimestre, especialmente em um ambiente de inadimplência desafiador para o setor bancário digital.
O sucesso da estratégia dependerá da capacidade do banco em provar que os atritos operacionais, como as mudanças na vinculação de empregos que afetaram a originação de crédito, foram superados com a implementação de novas ferramentas no aplicativo.
Outlook de incertezas
A principal dúvida permanece sobre a eficácia das novas concessões de crédito em um cenário de juros prolongadamente altos. O monitoramento contínuo da margem financeira e a evolução do ROE serão os termômetros para validar se a confiança da gestão se traduzirá em resultados concretos nos próximos balanços.
O mercado aguarda a consolidação dos números para decidir se a correção do papel foi, de fato, uma oportunidade de entrada ou se os desafios estruturais do setor ainda exigem uma precificação mais conservadora das ações do banco.
A trajetória do Inter nos próximos trimestres será um teste de resiliência para o modelo de bancos puramente digitais no Brasil. O equilíbrio entre expansão agressiva e controle de risco definirá a confiança do mercado a longo prazo. Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times





