O Festival de Locarno abriu seus trabalhos este ano com a entrega do Prêmio de Excelência a Isabella Rossellini, uma celebração que serviu menos como retrospectiva e mais como um manifesto. Ao comentar sua trajetória, a atriz revelou um princípio que a define: a escolha de um papel "nunca depende da premissa do enredo". O que importa, segundo ela, é a "qualidade de sua conexão com o diretor".
Esta filosofia explica uma filmografia que parece desafiar qualquer lógica de carreira convencional. Para Rossellini, o roteiro é um ponto de partida, não um destino. A verdadeira obra está na visão de quem comanda o set. Ela cita como exemplo o trabalho com Guy Maddin, cujos roteiros descreve como tão "barrocos" que é impossível antever o resultado final do filme. Nesses casos, resta apenas uma ferramenta: "confiar na sua intuição".
Essa confiança no cineasta, e não na história, a transformou em uma colaboradora ideal para autores com universos particulares, de David Lynch a Abel Ferrara. Em vez de se adaptar a um personagem pré-definido, ela se oferece como um instrumento para a visão do diretor, um ato de entrega que é cada vez mais raro em uma indústria obcecada por franquias e fórmulas previsíveis.
O risco como método
Trata-se de um método de alto risco. Apostar no diretor em detrimento da trama é abrir mão do controle e abraçar o imprevisível. Para cada Veludo Azul, pode haver um projeto que não encontra seu público ou sua forma. No entanto, é essa disposição para o risco que cimenta seu legado não apenas como atriz, mas como uma verdadeira artista do cinema.
A carreira de Rossellini funciona, assim, como um mapa de relações, não de papéis. Cada filme é um testemunho de um encontro, de uma sintonia artística que transcende a narrativa explícita. É uma abordagem que a coloca em diálogo direto com a própria essência do cinema de autor, onde a assinatura do diretor é o que verdadeiramente importa.
Ao ser homenageada, Rossellini não celebra apenas seu passado. Ela reafirma um modo de trabalhar que é, em si, uma provocação. Em um mundo que exige sinopses claras e retornos garantidos, ela nos lembra que o grande cinema muitas vezes nasce justamente onde o mapa termina e a intuição começa.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Criterion Daily





