A ICANN, organização responsável pela coordenação do sistema de nomes de domínio (DNS) global, identificou uma nova fonte de tráfego incomum nos servidores raiz do DNS. Provedores de Serviços de Internet (ISPs) estão enviando cada consulta de DNS três vezes simultaneamente para diferentes resolutores – tipicamente para Google, Cloudflare e um terceiro provedor. Essa abordagem, descrita como "cinto e suspensórios", visa garantir a continuidade do serviço, mas levanta preocupações sobre o consumo excessivo de recursos e a potencial sobrecarga da infraestrutura.

A descoberta surge após a ICANN ter monitorado e contribuído para a solução de um problema anterior envolvendo o navegador Google Chrome, apelidado de "Chromiods". Essa falha fazia com que o navegador gerasse cerca de metade de todo o tráfego para os servidores raiz do DNS em 2020, como uma tentativa de evitar sequestros de DNS. Graças à intervenção da ICANN e de outros stakeholders, o tráfego do Chrome foi drasticamente reduzido, caindo de 45% para cerca de 1% do total, tornando-se praticamente "ruído" nos dados atuais.

Mecanismos de Resiliência em Xeque

A prática dos ISPs de triplicar consultas DNS é incomum. Embora seja comum e recomendado especificar resolutores primário e secundário para redundância, o envio simultâneo de consultas para múltiplos provedores geralmente não é necessário, dado que os resolutores de DNS já possuem alta resiliência intrínseca. Os ISPs em questão enviam essas requisições tanto via IPv4 quanto IPv6. Além disso, para requisições não cacheadas, eles repetem a consulta em cerca de 100 milissegundos para quase metade das vezes, e em até trinta segundos para outros 30% dos casos. Maud Durand, tecnóloga principal da ICANN, indicou que a causa exata ainda está sob investigação, mas especula que pode ser um mecanismo de resiliência implementado por engenheiros com menos experiência em redes, uma espécie de "força bruta" para garantir a estabilidade.

Impactos Potenciais e Concentração de Mercado

Embora a ICANN acredite que os ISPs atualmente utilizando essa técnica não sejam grandes players do mercado, a organização expressa preocupação com a possibilidade de a prática se tornar generalizada ou ser adotada por entidades de maior porte. Um aumento significativo e desnecessário no tráfego de DNS poderia ter um impacto negativo na estabilidade e desempenho da internet global. Essa preocupação é amplificada pela tendência observada de concentração no número de provedores de resolução de DNS. Em 2020, os usuários podiam "ver" quase 250 fazendas de resolução; hoje, esse número caiu para pouco menos de 150. A concentração de serviços de DNS nas mãos de poucas grandes empresas de tecnologia pode criar pontos únicos de falha e reduzir a diversidade e a resiliência do ecossistema.

O Futuro da Resolução DNS

A ICANN continua a monitorar a situação, buscando entender se o comportamento dos ISPs é um bug intencional ou um erro de configuração. A organização enfatiza a importância de manter a diversidade e a distribuição dos serviços de DNS para a saúde geral da internet. A investigação sobre as motivações e os impactos dessa nova forma de consumo de recursos DNS é crucial para antecipar e mitigar quaisquer riscos potenciais à infraestrutura global.

A análise da ICANN sobre o tráfego de DNS aponta para um cenário em evolução na infraestrutura de rede, onde a busca por resiliência pode, paradoxalmente, introduzir novas vulnerabilidades. A atenção se volta agora para as respostas dos ISPs e para a capacidade do ecossistema de DNS de se adaptar a essas novas dinâmicas.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · The Register