A São Martinho (SMTO3) perdeu espaço entre as recomendações de compra do Itaú BBA, refletindo um momento de cautela no setor sucroenergético brasileiro. Segundo relatório do banco, a recomendação da companhia foi rebaixada de compra para neutra, enquanto o preço-alvo sofreu um corte severo de 32%, passando de R$ 31,00 para R$ 21,00.
A mudança de postura do banco aponta para um cenário onde as expectativas de mercado não se materializaram. Mesmo com a volatilidade geopolítica no Oriente Médio, que historicamente impulsionaria os preços do petróleo e, por consequência, a competitividade dos biocombustíveis, os efeitos práticos sobre as margens das empresas do setor foram limitados, forçando uma revisão das projeções de curto prazo.
Pressão estrutural no açúcar
O principal motor da revisão reside na perspectiva para o açúcar. O Itaú BBA adotou uma postura conservadora, alinhando suas estimativas à curva futura da commodity e abandonando o otimismo anterior. Embora os preços internacionais ainda flutuem próximos aos custos de produção globais, a oferta permanece pressionada pela expectativa de uma safra robusta no Centro-Sul brasileiro para 2026/27, projetada em 640 milhões de toneladas.
Além disso, o comportamento dos fundos especulativos e a falta de uma recuperação consistente nos preços internacionais reduziram o apetite pelo ativo. A análise sugere que, sem um catalisador claro de alta, o mercado tende a precificar a commodity com base na abundância de oferta, deixando pouco espaço para surpresas positivas nas margens de exportação da São Martinho.
O desafio da paridade no etanol
No segmento de etanol, a tese de ganho de competitividade frente à gasolina também perdeu força. A relação de preços em São Paulo, atualmente em 60%, indica um mercado abastecido que não permitiu o repasse integral da alta do petróleo. Esse cenário é agravado pela entrada agressiva de novos players no etanol de milho, com uma adição estimada de 2 bilhões de litros de capacidade produtiva para o próximo ano.
Essa expansão da oferta, aliada a uma política de preços de combustíveis que limita a volatilidade da gasolina, cria um teto para o valor do etanol. Para a São Martinho, que investe na segunda fase de sua planta de milho, o desafio é equilibrar a expansão da capacidade com a necessidade de manter margens saudáveis em um ambiente de preços de venda comprimidos.
Impacto do câmbio e investimentos
A valorização do real frente ao dólar atua como um vento contrário adicional, reduzindo a rentabilidade das exportações. Ao mesmo tempo, o alto nível de capex necessário para os projetos de expansão da companhia pressiona a geração de caixa operacional. Para o investidor, a combinação de commodities pressionadas, câmbio menos favorável e investimentos intensivos diminui a atratividade imediata do papel.
Apesar das dificuldades, o banco mantém a visão de que a São Martinho possui alta qualidade operacional. A projeção de um Ebitda robusto, na casa dos R$ 3,1 bilhões para 2027, reforça a resiliência da estrutura de custos e a disciplina financeira da gestão, elementos que sustentam a posição da empresa como referência no setor, mesmo em ciclos de baixa.
Perspectivas e incertezas
O que permanece em aberto é a capacidade do setor de absorver a nova oferta de etanol de milho sem erodir ainda mais as margens. Observar a dinâmica entre a paridade de preços na bomba e o custo de produção será fundamental para prever uma possível retomada de interesse pelo setor sucroenergético na bolsa.
A tese de investimento no curto prazo parece agora depender menos da eficiência individual da companhia e mais de fatores macroeconômicos, como a recuperação global dos preços do açúcar e uma política de preços de combustíveis que permita maior flexibilidade competitiva ao etanol.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times





