As ações da Usiminas (USIM5) ganharam tração no mercado após a divulgação de um relatório do Itaú BBA que revisa para cima o preço-alvo do papel, elevando-o de R$ 9 para R$ 11. O movimento ocorre em um momento de cautela no Ibovespa, mas a siderúrgica tem se destacado, acumulando uma valorização superior a 82% desde a última atualização do modelo do banco, em outubro do ano passado.

A tese central da casa, liderada pelo analista Daniel Sasson, baseia-se na identificação de um benefício fiscal retroativo decorrente de Juros sobre Capital Próprio (JCP). Segundo o banco, a recente definição do Superior Tribunal de Justiça (STJ) permite que empresas deduzam valores de JCP de exercícios anteriores, retroagindo a 1996, o que pode impactar positivamente o Fluxo de Caixa Livre (FCF) da companhia.

A natureza do benefício fiscal

A decisão do STJ em janeiro abriu uma janela para que empresas possam registrar e deduzir JCP de anos passados para fins de IRPJ e CSLL. No caso da Usiminas, o Itaú BBA estima que esse montante possa variar entre R$ 1,7 bilhão e R$ 3,6 bilhões. Trata-se de um valor significativo, representando entre 15% e 32% do atual valor de mercado da siderúrgica.

Embora o cronograma para a monetização desses créditos permaneça incerto, a equipe de análise trata o tema como uma opcionalidade estratégica. O mercado, até o momento, não incorporou essa possibilidade em seus modelos de valuation, o que sugere que qualquer avanço concreto na recuperação desses valores pode atuar como um catalisador adicional para a cotação das ações nos próximos meses.

Dinâmicas do mercado de aço

Além do fator fiscal, a análise aponta para uma mudança qualitativa no ambiente operacional da Usiminas. O mercado doméstico de aço apresenta condições mais firmes, impulsionadas por reajustes de preços recentes e por um cenário global que, influenciado por tensões geopolíticas, mantém os preços do aço em patamares mais elevados.

O banco destaca que os impactos das medidas antidumping adotadas recentemente ainda não foram plenamente absorvidos pelos preços internos. A expectativa é que, com a redução esperada no volume de importações, o mercado brasileiro enfrente um aperto na oferta, criando um ambiente de precificação mais favorável a partir do terceiro trimestre deste ano.

Implicações para o setor

A perspectiva otimista se estende às projeções financeiras da companhia, que superaram as expectativas no primeiro trimestre de 2026. Com a otimização de custos e a projeção de preços melhores, o Itaú BBA revisou sua estimativa de Ebitda para 2026 para R$ 3 bilhões, um aumento de 31% frente à projeção anterior, e projeta R$ 3,6 bilhões para 2027.

Essa trajetória de expansão de Ebitda e geração de caixa coloca a Usiminas em uma posição competitiva distinta no setor. A capacidade da empresa de repassar custos e se beneficiar de uma estrutura de capital mais eficiente, caso os créditos fiscais se concretizem, desenha um cenário de desalavancagem e maior retorno aos acionistas.

O que observar

A principal incerteza reside na velocidade com que esses benefícios fiscais serão monetizados e como a gestão da Usiminas pretende alocar esse capital extra. O mercado deve monitorar de perto os próximos balanços e eventuais comunicações da empresa sobre a utilização desses créditos acumulados.

O desempenho das ações nos próximos trimestres dependerá tanto da sustentabilidade dos preços do aço quanto da eficácia operacional na implementação dessas novas margens. O otimismo dos analistas, contudo, sinaliza uma confiança renovada na capacidade da siderúrgica de capturar valor em um ambiente de transição regulatória e comercial.

O mercado financeiro permanece atento à volatilidade doméstica, mas a tese em torno da Usiminas ilustra como ajustes regulatórios podem alterar o valuation de empresas maduras de forma inesperada. A trajetória dos próximos meses servirá de teste para a tese de que o papel ainda possui fôlego para novas altas.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times