A J&F Investimentos oficializou a contratação de Reynaldo Passanezi, ex-CEO da Cemig, para liderar suas operações no setor de energia nuclear. A movimentação estratégica da holding dos irmãos Joesley e Wesley Batista marca um passo importante na consolidação de sua presença em um dos segmentos mais complexos e regulados da infraestrutura brasileira. Segundo apuração do Brazil Journal, o negócio nuclear será gerido de forma independente da Âmbar Energia, braço elétrico que tem sido o principal veículo de expansão do grupo no setor de energia.
Passanezi, que comandou a Cemig por seis anos, chega à J&F com o desafio de atuar como o principal interlocutor público da companhia na sociedade com o Governo Federal na Eletronuclear. A entrada da J&F no setor, concretizada em outubro de 2025 com a aquisição da fatia da Axia, coloca o grupo como detentor de 67,95% do capital da estatal, embora o controle decisório permaneça com a União, por meio da ENBPar, devido às restrições constitucionais que impedem o controle privado em atividades nucleares.
A trajetória de um gestor de infraestrutura
A escolha de Passanezi não é aleatória. Com passagens pela presidência da Cemig e pelo comando da transmissora ISA Energia, o executivo acumulou uma vivência profunda em regulação e gestão de ativos de grande escala. Sua experiência anterior, que inclui a atuação no Comitê de Privatizações do Estado de São Paulo, confere a ele a bagagem necessária para navegar em um ambiente onde as decisões técnicas são frequentemente indissociáveis das diretrizes políticas emanadas de Brasília.
Para a J&F, a contratação reflete a necessidade de profissionalizar a interface com o setor público em um projeto que exige interlocução constante com ministérios e órgãos reguladores. O grupo, que já possui um portfólio vasto na Âmbar — incluindo termelétricas, hidrelétricas e distribuição —, agora se posiciona em um ativo estratégico que, embora promissor, apresenta riscos operacionais elevados e uma curva de maturação longa, exigindo uma gestão de stakeholders extremamente refinada.
O desafio de Angra 3
O principal ativo sob a gestão de Passanezi é, sem dúvida, a usina de Angra 3, um projeto que se tornou símbolo de ineficiência e entraves burocráticos. Paralisada desde 2015, após os desdobramentos da Operação Lava Jato, a obra apresenta 65% de avanço físico e já consumiu cerca de R$ 12 bilhões. O dilema que o novo executivo enfrenta é o custo de oportunidade: estudos do BNDES indicam que a conclusão exigiria um aporte adicional da ordem de R$ 24 bilhões, enquanto o abandono da obra geraria um passivo de até R$ 26 bilhões para o Estado.
A dinâmica de incentivos aqui é clara: a J&F, como sócia majoritária no capital, tem interesse direto na viabilização econômica do ativo, mas depende inteiramente das decisões do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE). A estratégia de Passanezi deverá focar em alinhar as expectativas da holding com a agenda do Ministério de Minas e Energia, buscando destravar o canteiro de obras e garantir que o projeto, finalmente, traga retorno sobre o capital investido.
Tensões entre o capital privado e o controle estatal
A estrutura societária da Eletronuclear impõe uma tensão inerente: o capital privado busca eficiência e previsibilidade, enquanto o controle estatal prioriza a segurança energética e a conformidade com as diretrizes governamentais. Esse arranjo híbrido, definido durante a privatização da Eletrobras, coloca a J&F em uma posição de dependência política que poucos grupos privados costumam aceitar. A habilidade de Passanezi em mediar esses interesses será o fiel da balança para o sucesso da empreitada.
Para o mercado e para os demais stakeholders do setor elétrico, o movimento da J&F sinaliza uma aposta de longo prazo na energia nuclear como parte da matriz de carga de base do país. Caso a gestão consiga avançar nas negociações com o Governo, o precedente pode abrir caminho para uma maior participação privada em projetos de infraestrutura que, historicamente, foram exclusividade da administração pública direta.
Perspectivas e incertezas
O que permanece em aberto é a velocidade com que o CNPE decidirá sobre o futuro de Angra 3. Embora o ministro Alexandre Silveira tenha manifestado apoio ao avanço do projeto, a pauta tem sido sistematicamente adiada, refletindo a complexidade orçamentária e as incertezas políticas que cercam a conclusão da usina. O mercado aguarda sinais concretos de que a estrutura societária atual possui fôlego para absorver os custos operacionais até que a usina entre em operação.
Observar a evolução da relação entre a J&F e o Governo nos próximos meses será fundamental para entender se a contratação de Passanezi é apenas um movimento de gestão ou o início de uma nova fase de execução para o projeto. A capacidade de transformar um ativo paralisado em uma fonte de energia viável definirá o sucesso desta incursão da J&F no setor nuclear.
A contratação de um executivo com o perfil de Passanezi sugere que a J&F não está apenas comprando ativos, mas tentando construir uma governança capaz de lidar com a complexidade política e técnica do setor nuclear brasileiro. A questão central agora é se essa articulação será suficiente para superar os obstáculos que paralisaram o projeto por quase uma década. Com reportagem de Brazil Valley
Source · Brasil Journal Tech





