Quando a realidade se impõe com a força da violência, da prisão e da morte, pode a metáfora continuar sendo o caminho para a verdade? Ou o poeta deve, inevitavelmente, se tornar uma testemunha? A questão, levantada por Ali Farahmand em ensaio no Brooklyn Rail, ecoa no coração do cinema iraniano contemporâneo e encontra um de seus exemplos mais potentes em No Bears (2022), de Jafar Panahi.
O cinema iraniano da segunda metade do século XX, de mestres como Abbas Kiarostami e Bahram Beyzaie, construiu uma reputação global em cima da "poesia, quietude, contemplação", como descreve Farahmand. Era uma linguagem de omissão e economia narrativa, que abria espaço para a reflexão ao invés do espetáculo. Mas algo mudou.
Da poesia ao testemunho
Uma nova geração, que inclui o próprio Panahi, além de nomes como Asghar Farhadi e Mohammad Rasoulof, parece compartilhar de um impulso comum: o afastamento da alegoria em direção à realidade vivida. A câmera não busca mais a beleza sublime na paisagem ou no gesto sutil; ela registra a urgência da rua, a brutalidade da repressão, a vida que é constantemente interrompida.
Não se trata de uma escolha puramente estética. É uma resposta a um contexto onde "a rua, a prisão, a violência e a morte continuamente invadem a vida cotidiana", como aponta a análise. A linguagem cinematográfica se adapta por necessidade, transformando o ato de filmar em um ato de documentar, de testemunhar.
O cineasta como prova
O trabalho de Panahi, que filma apesar de proibições e perseguições do regime, é a personificação desse dilema. Seus filmes mais recentes, incluindo No Bears, borram as fronteiras entre ficção e documentário, entre o diretor e o personagem, porque a sua própria vida se tornou o material mais urgente.
A questão que fica não é se este novo cinema é "melhor" ou "pior" que o de seus predecessores poéticos. A pergunta é sobre sua função. Quando a arte abandona a metáfora não por opção, mas por imposição da realidade, ela se torna um documento histórico, uma prova de vida.
O poeta, ao se tornar testemunha, não deixa de ser poeta. Talvez ele apenas tenha encontrado uma nova métrica, forjada na crueza dos fatos, onde cada frame é um ato de resistência e sobrevivência.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Criterion Daily





