Estreou no Festival de Veneza o drama iraniano “Falling House”, do diretor Mohsen Gharaei. O filme narra a história de uma família de Teerã às vésperas de uma mudança, com a casa atual programada para demolição. A crise se instala quando o pai, um agente penitenciário, descobre o plano da filha mais velha de deixar o Irã para seguir a carreira de modelo.
A partir daí, o lar se converte em uma extensão da prisão onde ele trabalha. Segundo a crítica do site britânico Little White Lies, o filme usa essa premissa para construir uma potente, ainda que imperfeita, metáfora sobre a falta de autonomia e liberdade na sociedade iraniana, especialmente para as mulheres. A obra marca o retorno de Gharaei à direção após um hiato de seis anos, um protesto autoimposto contra as duras restrições à produção cinematográfica em seu país.
A casa como microcosmo
O ponto central de “Falling House” é a transformação do patriarca, Rashid. Inicialmente um pai afetuoso, ele se torna um carcereiro dentro da própria casa ao se deparar com o que considera uma insubordinação familiar. A casa, prestes a ruir, funciona como um espelho de um sistema social em colapso, onde a autoridade, mesmo quando bem-intencionada em sua própria visão, recorre à força para manter o controle. A ironia, apontada no filme, é que as mulheres da família haviam se unido para tirar Rashid da prisão após acusações de corrupção — se o tivessem deixado lá, estariam livres.
A leitura é que o filme serve como uma alegoria da vida no Irã. O próprio diretor o descreve como “um filme sobre liberdade perdida, sobre escolhas soterradas pelo medo e pelo destino imposto”. Ao focar na dinâmica familiar, Gharaei universaliza o debate sobre opressão, mostrando como estruturas autoritárias se replicam no ambiente mais íntimo, transformando um homem comum em um agente do sistema que ele mesmo despreza em seu trabalho.
A tensão e seus limites
Apesar da premissa forte, a execução narrativa apresenta fragilidades, aponta a crítica. A tensão, embora elevada, se torna repetitiva, pois a situação se fecha em apenas dois desfechos possíveis, sem grandes variações de ritmo. A estrutura dramática, confinada ao apartamento, não consegue modular a angústia de forma eficaz, limitando o impacto emocional da obra.
Outro ponto questionado é a inclusão de uma subtrama sobre o diagnóstico de câncer da filha mais velha. Embora reforce sua urgência em deixar o país, o elemento é visto como supérfluo para uma dinâmica já carregada de conflitos. No fim, o que sustenta o filme são as atuações do elenco, mas o roteiro, descrito como “super-projetado”, acaba por minar a solidez de sua ideia central.
Ainda assim, “Falling House” se firma como um ato político. Leva a um palco global a claustrofobia de viver sob um regime onde o controle paterno e o estatal se confundem, e onde a própria casa pode se tornar uma cela. A obra convida à reflexão sobre até que ponto a busca por segurança justifica a supressão da liberdade, uma questão que reverbera muito além das paredes daquela família em Teerã.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Little White Lies





