A Brooklyn Army Terminal (BAT), em Sunset Park, Nova York, tornou-se o cenário para uma intervenção artística que desafia a própria natureza da camuflagem militar. Na instalação "Tidal Crossing", a artista Jean Shin apresenta três conjuntos de redes de estilo militar, dispostas sob os arcos de uma das passagens elevadas do terminal. Entre cada rede, Shin adicionou faixas de camuflagem sobrepostas com imagens de flora nativa de regiões onde os Estados Unidos estiveram envolvidos em conflitos.

A obra, inaugurada em 19 de setembro, é a última adição a "In Plain Sight", uma exposição pública que celebra o trabalho de 12 artistas baseados no Brooklyn. A escolha do local não é acidental: a BAT já foi o maior centro de suprimentos militares dos EUA, conferindo um peso histórico à instalação. As faixas de camuflagem, em tons de verde, azul e areia, criam um contraste visual marcante com o concreto industrial do espaço. Mais do que um elemento estético, o padrão militar evoca temas que ressoam com as comunidades imigrantes de Sunset Park, levantando questões sobre pertencimento em novos ambientes.

Shin explora como a camuflagem, seja em missões secretas, na introdução de plantas exóticas em novos países ou no deslocamento forçado de populações por guerras, está intrinsecamente ligada à ideia de disfarce e adaptação. "Este projeto me faz pensar na pergunta 'quem pertence aqui?'", disse Shin à Hyperallergic. "O que é estrangeiro em um momento, na verdade, é muito familiar." Essa dualidade é central para a obra, que convida à reflexão sobre a identidade e a origem em um mundo cada vez mais interconectado e marcado por fluxos migratórios e conflitos.

Cada faixa da instalação apresenta um tema ambiental distinto e utiliza um padrão de camuflagem que remonta à Segunda Guerra Mundial. Desde o design "Frogskin", com suas manchas irregulares e usado principalmente no Pacífico, até o "Chocolate Chip", com sua configuração salpicada e empregado na Guerra do Golfo. Mais recentemente, os EUA adotaram o "Digital Camo", um padrão quase como um código QR, utilizado entre as décadas de 2000 e 2010 para confundir sistemas de detecção online no Afeganistão e no Iraque. A escolha desses padrões históricos e modernos sublinha a longa e complexa relação entre o militarismo e o impacto ambiental e humano.

A instalação de Shin em "Tidal Crossing" serve como um poderoso comentário sobre a natureza da guerra, da migração e da identidade. Ao subverter um símbolo de ocultação militar e integrá-lo com elementos da natureza e da flora de regiões em conflito, a artista nos convida a olhar para além da superfície, questionando o que significa pertencer e como os padrões – sejam eles militares, naturais ou sociais – moldam nossa percepção do mundo e de nós mesmos.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Hyperallergic