Jensen Huang, o CEO da Nvidia, declarou que a inteligência artificial geral (AGI) — a tecnologia antes relegada à ficção científica — finalmente chegou. O marco, segundo ele, foi o lançamento do modelo Astra, da OpenAI. A declaração, feita em uma rede social, gerou um debate imediato, com apoiadores e céticos se manifestando. No entanto, quando os mercados reabriram, a reação foi tudo menos explosiva. As ações da Nvidia, a empresa no epicentro da revolução da IA, chegaram a cair 2%.

A aparente indiferença do mercado levanta uma questão central: os investidores não acreditam em Huang ou o potencial da AGI já foi precificado? Segundo uma reportagem da revista Fortune, a resposta pode estar em um lugar inesperado. A tese é que o verdadeiro termômetro da revolução da IA não está no sobe e desce da Nasdaq, mas no comportamento das taxas de juros reais, um indicador muito mais fundamental da saúde e das expectativas de crescimento da economia.

O termômetro dos juros

Economistas como Basil Halperin, da Universidade da Virgínia, argumentam que se a AGI estivesse prestes a gerar o crescimento de produtividade prometido por seus entusiastas, o efeito mais claro seria um aumento substancial nas taxas de juros reais. A lógica é direta: um crescimento econômico maior eleva o valor descontado dos lucros futuros, pressionando os juros para cima. Cada ponto percentual de crescimento adicional do PIB deveria, em tese, adicionar um ponto percentual às taxas reais.

O mercado de ações, por outro lado, é um sinal considerado "ruidoso". Fatores como concorrência acirrada entre laboratórios de IA — como OpenAI e Anthropic —, riscos existenciais e a própria dinâmica de alocação de capital podem distorcer os preços. As taxas de juros, especificamente os rendimentos dos títulos do Tesouro americano protegidos da inflação (TIPS), seriam um indicador mais limpo. E, até agora, eles não sinalizam uma singularidade iminente. Embora tenham subido nos últimos anos, o movimento é atribuído principalmente aos investimentos maciços dos hyperscalers em infraestrutura, e não a uma mudança radical nas expectativas de crescimento de longo prazo.

AGI: uma questão de definição

Parte da dissonância reside na própria definição de AGI. Enquanto Huang já a definiu informalmente como a capacidade de criar uma empresa de um bilhão de dólares, pesquisadores da área usam um critério mais rigoroso: uma IA que possa igualar ou superar a proficiência cognitiva de um adulto bem-educado em uma vasta gama de tarefas. Sob esta ótica, os modelos atuais, embora impressionantes, ainda falham em testes práticos, como demonstrou o próprio Halperin ao tentar, com dificuldade, usar o GPT para migrar playlists de música.

O comportamento do mercado de ações também revela nuances. As empresas que subiram após o anúncio foram aquelas com maior alavancagem direta ao sucesso da OpenAI, como CoreWeave e SoftBank. A Nvidia, por sua vez, é vista por alguns analistas como "grande demais para crescer" no ritmo alucinante que apresentou recentemente, com seu papel sendo mais o de uma fonte de liquidez para apostas mais arriscadas no ecossistema de IA. Isso mostra que o mercado faz apostas calculadas, e não que comprou a narrativa da singularidade de forma irrestrita.

O sentimento que prevalece, portanto, não é de descrença no potencial da IA, mas de uma expectativa mais calibrada. O mercado parece precificar um cenário mais parecido com um "boom da internet, porém duas vezes mais rápido e intenso", e não uma ruptura que reescreve as leis da economia da noite para o dia. A pergunta sobre a chegada da AGI permanece aberta, mas a resposta, por enquanto, é ditada pela sobriedade dos mercados de crédito, não pelo fervor das redes sociais.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune