A biotecnologia vive um momento paradoxal: enquanto a capacidade de realizar avanços científicos antes considerados impossíveis atinge seu ápice, as fundações institucionais que sustentam esse progresso mostram sinais claros de fragilidade. Segundo Jeremy Levin, veterano da indústria e atual presidente da Ovid Therapeutics, o ecossistema que engloba reguladores, investidores e a própria confiança pública na ciência está sob pressão crescente.

Em seu livro recente, "Biotech in the Balance", o ex-CEO da Teva Pharmaceuticals argumenta que a combinação de instabilidade política, instituições enfraquecidas e uma cultura de investimento orientada ao curto prazo coloca em risco a liderança global dos Estados Unidos no setor. Para Levin, o problema não reside na ciência, que continua a acelerar, mas na infraestrutura socioeconômica e regulatória que permite que essas inovações cheguem ao mercado.

A erosão das instituições de suporte

A tese central de Levin é que a biotecnologia depende de um pacto de longo prazo entre academia, setor privado e órgãos reguladores. Esse pacto, contudo, tem sido corroído por ciclos políticos cada vez mais erráticos e por uma desconfiança crescente da população em relação ao método científico. Quando as instituições que deveriam servir como guardiãs da estabilidade se tornam fontes de incerteza, o capital de risco tende a retrair-se ou a buscar horizontes de retorno mais imediatos.

Historicamente, a liderança americana foi construída sobre a previsibilidade regulatória e o forte apoio à pesquisa básica. O cenário atual, marcado por uma polarização que afeta desde a aprovação de novos tratamentos até o financiamento público, ameaça desmantelar essa vantagem competitiva. Sem um ambiente que garanta a continuidade dos projetos de longo prazo, a inovação biotecnológica corre o risco de se tornar fragmentada ou insuficiente para enfrentar desafios globais de saúde.

O silêncio dos gigantes do setor

Um dos pontos mais críticos levantados pelo executivo é o comportamento das grandes empresas farmacêuticas diante das mudanças regulatórias. Levin observa que, embora o setor seja impactado diretamente por decisões políticas e pela instabilidade institucional, os principais líderes da indústria têm mantido um silêncio estratégico que ele considera contraproducente. Para o executivo, o setor precisa ser mais vocal ao explicar como a incerteza regulatória prejudica a capacidade de entrega de novos medicamentos.

O mecanismo de incentivos atual favorece a cautela, mas Levin sugere que a omissão dos "titãs" da indústria acaba por acelerar o desgaste da confiança pública. Ao não se posicionarem sobre os riscos estruturais, essas empresas permitem que a narrativa pública seja dominada por agendas que não priorizam o desenvolvimento científico. A necessidade de uma advocacia mais robusta e transparente é apontada como essencial para reverter o quadro de desconfiança institucional.

Tensões globais e o futuro da inovação

A posição de liderança dos EUA na biotecnologia não é um dado imutável e enfrenta concorrência crescente de outras regiões que investem pesado em infraestrutura científica. A tensão entre a necessidade de regulação rigorosa e o desejo de acelerar a inovação cria um dilema para os formuladores de políticas. Se o ambiente americano se tornar excessivamente volátil ou hostil, o fluxo de talentos e capital global pode se deslocar para jurisdições com maior estabilidade institucional.

Para os stakeholders, o desafio é equilibrar a responsabilidade social com a necessidade de retornos financeiros que sustentem a pesquisa de alto risco. O mercado brasileiro, inserido nessa dinâmica global, observa com atenção, uma vez que a integração da cadeia de suprimentos e a colaboração científica internacional dependem diretamente da saúde desse ecossistema nos EUA. A instabilidade em um dos polos centrais da biotecnologia mundial reverbera inevitavelmente em toda a rede global de saúde.

Interrogações sobre o próximo ciclo

O que permanece incerto é se a indústria terá a capacidade de se organizar para influenciar o debate político antes que os danos estruturais se tornem permanentes. A transição de um modelo de crescimento baseado em euforia para um modelo baseado em resiliência institucional exigirá mudanças profundas na forma como as empresas se relacionam com o ambiente regulatório e com a sociedade.

Observar a postura dos conselhos de administração das grandes farmacêuticas nos próximos trimestres será fundamental para entender se haverá uma mudança na estratégia de comunicação. O futuro da liderança americana no setor dependerá, em última análise, da disposição dos líderes atuais em defender ativamente as instituições que permitiram o sucesso da biotecnologia nas últimas décadas, em vez de apenas reagir às crises de curto prazo.

A questão que fica é se o setor conseguirá recuperar o papel de liderança intelectual e política que, segundo Levin, foi negligenciado. Com reportagem de Brazil Valley

Source · STAT News (Biotech)