O projeto de redesenvolvimento do bairro Barry Farm, em Washington, D.C., representa uma mudança de paradigma na forma como grandes empreendimentos de habitação acessível são concebidos e executados. Em vez de focar apenas na densidade ou na redução de custos, o esforço liderado pelo arquiteto Jimmie Drummond, fundador da Drummond Projects, coloca os antigos moradores, deslocados por décadas de políticas urbanas desfavoráveis, como os protagonistas do processo de design. Segundo reportagem da Fast Company, a iniciativa busca restaurar o tecido social de uma comunidade historicamente negra, estabelecida originalmente em 1867.
O projeto, que prevê a conclusão total até 2030, já entregou as duas primeiras etapas, totalizando mais de 150 unidades habitacionais destinadas às famílias que possuíam o direito de retorno. A abordagem de Drummond, eleito Visionário do Ano pela Fast Company, destaca-se por tratar o morador não como um beneficiário passivo, mas como o verdadeiro cliente do serviço arquitetônico.
A arquitetura como ferramenta de reparação
Barry Farm carrega uma história complexa de desinvestimento público e fragmentação causada pela infraestrutura rodoviária. Desde 2013, a organização sem fins lucrativos Preservation of Affordable Housing (POAH) trabalha com a comunidade para desenhar um plano que não apenas forneça teto, mas que integre oportunidades econômicas e serviços de apoio. A leitura editorial aqui é que o sucesso dessa empreitada depende da capacidade de reverter o que Drummond denomina como "privação espacial e cultural".
O arquiteto utiliza sua experiência prévia em grandes firmas de Nova York para aplicar um rigor técnico que raramente é direcionado a projetos de habitação popular. Para ele, a necessidade de um design de alta qualidade é proporcionalmente maior em comunidades marginalizadas do que em empreendimentos de mercado, onde o valor estético é muitas vezes confundido com luxo supérfluo.
O mecanismo do design informado por traumas
O diferencial técnico de Drummond reside na adoção do "design informado por traumas". Esse conceito parte da premissa de que o ambiente físico deve responder às crises e aos desafios históricos dos moradores. Na prática, isso se traduz em escolhas de design que promovem a autonomia e a segurança, como a instalação de portas de entrada ao nível da rua e a criação de espaços que incentivam a vizinhança, combatendo o isolamento típico de grandes complexos habitacionais.
Detalhes aparentemente simples, como a iluminação regulável dentro das unidades ou a sinalização personalizada nas portas, visam devolver ao morador o controle sobre o seu espaço privado. O objetivo é que o design funcione como uma ferramenta de estabilidade, reconhecendo a transição de vida que cada família enfrenta ao retornar ao bairro.
Stakeholders e o impacto no ecossistema
O projeto envolve uma rede complexa de interesses, desde a gestão da POAH até os reguladores municipais de Washington. A inclusão de áreas de uso misto, como espaços para treinamento profissional, serviços de saúde mental e creches, sugere que o sucesso de um empreendimento de habitação acessível não se limita às paredes da unidade, mas à infraestrutura de suporte oferecida no nível do solo.
Para o mercado de arquitetura e urbanismo, Barry Farm serve como um estudo de caso sobre como a participação direta dos usuários pode mitigar a desconfiança em relação a grandes projetos de reurbanização. A tensão entre a necessidade de escala e a sensibilidade comunitária continua sendo o principal desafio para outros desenvolvedores que buscam replicar esse modelo.
Perspectivas para a conclusão em 2030
Embora os primeiros edifícios já estejam operacionais, a verdadeira prova de conceito virá com a conclusão completa do bairro, que contará com cerca de 1.000 apartamentos e townhomes. A sustentabilidade do modelo, tanto financeira quanto social, será observada de perto por urbanistas interessados em soluções para o déficit habitacional em grandes centros.
O que permanece em aberto é a capacidade de escala desse método. Se o design centrado no morador for tratado como um luxo, o impacto será limitado; se for incorporado como padrão de exigência em licitações públicas, poderá redefinir o urbanismo social nas próximas décadas.
A transformação de Barry Farm desafia a noção de que habitação de baixo custo deve ser sinônimo de design genérico. Ao priorizar a dignidade humana em cada detalhe, a proposta sugere que o valor da arquitetura reside, acima de tudo, na sua capacidade de acolher a história de quem a habita. Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fast Company





