A luz estroboscópica de um porão em Nova York nunca pareceu tão melancólica quanto sob o olhar de Jordan Firstman. Em Club Kid, sua estreia na direção, o cineasta abandona a máscara do 'tirano gay' da internet para explorar o vazio existencial que habita o centro da pista de dança. A cena inicial, um turbilhão de corpos, GHB e hedonismo frenético, estabelece o terreno onde Peter, um promotor de festas vivido pelo próprio Firstman, tenta desesperadamente encontrar um sentido antes que a madrugada o engula por completo. O filme não é apenas uma crônica da vida noturna; é um estudo sobre a responsabilidade que surge quando o caos da juventude colide com a crueza da vida adulta.

A transição do meme para o autor

Firstman, que se tornou um rosto onipresente na cultura digital por sua habilidade em satirizar comportamentos modernos, enfrenta aqui o desafio clássico do artista que busca ser levado a sério. A transição de 'estilista de luxo' em produções alheias para o papel de roteirista, diretor e protagonista de sua própria obra poderia facilmente cair na armadilha do narcisismo. Contudo, o que emerge é um projeto de uma precisão estética notável, onde cada enquadramento em 35mm parece justificado por uma necessidade narrativa de capturar a efemeridade das conexões humanas. A obra sugere que a vivência digital, longe de ser uma barreira, forneceu a Firstman um vocabulário único para dissecar a solidão contemporânea.

O mecanismo da redenção improvável

O motor da trama é um dispositivo narrativo quase clássico: a chegada de um filho, Arlo, fruto de um encontro casual uma década antes. A dinâmica entre Peter e o jovem, interpretado por Reggie Absolom, força o filme a mudar de tom, trocando a euforia química das festas por uma intimidade silenciosa e, por vezes, dolorosa. A escolha de Firstman em equilibrar referências a memes da cultura pop com diálogos de uma honestidade brutal é o segredo do sucesso do longa. Ele não renega o passado de seu protagonista, mas o coloca em xeque, permitindo que a vulnerabilidade se infiltre através das rachaduras de uma rotina até então inabalável.

Cinema e a geografia do afeto

O uso de locações em Nova York, capturadas com uma lente que parece amar a cidade tanto quanto seus personagens, confere ao filme uma textura de memória. Em cenas como a performance musical em um apartamento iluminado por um pôr do sol alaranjado, Firstman demonstra uma contenção que surpreende quem o conhecia apenas pelo ritmo acelerado de seus vídeos curtos. O filme questiona, em última análise, o que significa ser salvo por alguém que você mal conhece, invertendo os papéis tradicionais de mentor e aprendiz em um jogo de espelhos emocional que ressoa com o espectador.

O futuro da voz autoral

O que permanece após o encerramento de Club Kid é a sensação de que Firstman apenas arranhou a superfície de suas capacidades. A incerteza reside em saber se ele conseguirá manter esse equilíbrio delicado entre o cinismo do mundo moderno e a ternura que ele demonstrou ser capaz de evocar. O cinema independente, muitas vezes refém de suas próprias fórmulas, ganha aqui uma nova voz que não tem medo de transitar entre o vulgar e o sublime. Resta observar se essa transição de 'jester' a autor será o caminho definitivo para um dos criadores mais singulares de sua geração.

O filme encerra não com uma resposta definitiva, mas com a imagem persistente de personagens que, mesmo em meio à confusão de suas próprias vidas, conseguiram encontrar um momento de pausa. Entre o brilho das luzes de neon e a quietude de um táxi no meio da noite, fica a dúvida sobre o que acontece quando a música finalmente para de tocar. Com reportagem de Brazil Valley

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