A Becle, a gigante mexicana por trás da icônica marca de tequila José Cuervo, enfrenta um trimestre de fortes turbulências. A companhia anunciou uma queda expressiva de 84,6% em sua utilidade líquida, que despencou para 633 milhões de pesos no terceiro trimestre de 2026. As vendas líquidas consolidadas também sentiram o impacto, recuando 15,3% em relação ao ano anterior, totalizando 9.253 milhões de pesos. O desempenho da José Cuervo, que representa mais de um terço do volume e das vendas líquidas da Becle, foi particularmente preocupante, com uma retração de 21,3% em suas vendas e uma queda de 11% em volume.

O peso de uma marca tradicional

O declínio nos resultados da Becle não pode ser atribuído unicamente a fatores cambiais. Embora a força do peso mexicano tenha sido um desafio em trimestres anteriores, a queda de 10,3% nas vendas líquidas em moeda constante no último trimestre sugere problemas mais profundos. A rentabilidade também foi severamente afetada, com o EBITDA caindo 57,9% e a margem UAFIDA (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) caindo pela metade, de 31,7% para 15,7%. Essa combinação de menor volume de vendas e margem reduzida aponta para uma batalha intensa em um mercado de destilados que parece não estar mais tão receptivo às marcas estabelecidas como antes.

Desafios de mercado e de distribuição

A administração da Becle mencionou a realinhamento da distribuição nos Estados Unidos como um fator em andamento, mas também reconheceu que o portfólio, apesar de superar o mercado geral de espirituosos, enfrenta um cenário competitivo. A queda de 11% no volume da marca José Cuervo é um sinal de alerta, indicando uma possível dificuldade em atrair consumidores mais jovens ou em expandir o apelo para além de seu público tradicional. Em um setor onde a inovação e a adaptação às novas preferências do consumidor são cruciais, marcas com décadas de história podem ter mais dificuldade em se reinventar.

Implicações para o futuro

O desempenho fraco da Becle reflete-se diretamente no mercado de ações, com os papéis da companhia acumulando uma queda de 25,7% em 2026. A pressão sobre as vendas no México, embora parcialmente explicada pela venda de uma marca de bebidas não alcoólicas, também mostra um mercado interno desafiador. A queda de 12,4% em volume no México, mesmo com um crescimento orgânico de 0,3% ao excluir a operação específica, indica que o cenário promocional e uma mistura de marcas menos favorável continuam a pesar. Para a Becle, o desafio agora é duplo: reverter a tendência de queda em sua marca principal e encontrar novas avenidas de crescimento em um mercado global em constante mutação.

Perguntas no horizonte

A gestão da Becle precisará demonstrar como pretende reverter a perda de consumidores e recuperar a lucratividade. A estratégia de realinhamento de distribuição nos EUA é um passo, mas a capacidade da José Cuervo de se manter relevante para novas gerações de consumidores de bebidas alcoólicas será fundamental. O sucesso em diversificar o portfólio ou em inovar dentro de suas marcas existentes será crucial para navegar em um setor cada vez mais dinâmico e competitivo, onde a lealdade à marca tradicional não é mais garantida. A empresa precisa não apenas de uma recuperação, mas de uma reinvenção estratégica.

A Becle enfrenta um cenário complexo, onde a força de suas marcas históricas é posta à prova pela evolução dos hábitos de consumo e pela intensa concorrência. A capacidade de adaptação e inovação será o diferencial para a recuperação de seus lucros e para a sustentação de seu legado no mercado global de destilados.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Expansión MX