O governador do Banco de Espanha, José Luis Escrivá, manifestou nesta quinta-feira preocupações estruturais sobre a eficácia e a sustentabilidade das políticas de controle de preços no mercado de aluguéis. Durante o evento 'A economia e o setor financeiro no ambiente geopolítico', organizado pela Foros de Vanguardia, Escrivá pontuou que tais intervenções, embora possam parecer paliativos imediatos, geram distorções severas quando prolongadas artificialmente.

Segundo o relatório anual da autoridade monetária espanhola, a manutenção de tetos nos preços de aluguel tende a desestimular a entrada de novos imóveis no mercado ou a forçar o aumento dos valores para novos contratos. O governador enfatizou que a medida deve ser encarada exclusivamente como uma solução de natureza transitoria, sob pena de agravar a escassez habitacional em vez de resolvê-la.

Riscos de distorção na oferta

A tese central do Banco de Espanha é que o controle de preços atua como uma barreira de entrada para proprietários e investidores. Ao limitar o retorno esperado, o mercado reage reduzindo a oferta de novas unidades ou direcionando os imóveis para modelos de negócio alternativos, como o aluguel de curta temporada, que frequentemente escapa dessas regulações.

Essa dinâmica cria um hiato entre o estoque existente e as novas unidades que buscam o mercado. Quando os proprietários tentam compensar o risco regulatório ou as margens comprimidas, os preços para novos contratos tendem a subir, penalizando justamente o segmento da população que o controle pretendia proteger inicialmente.

Mecanismos de desequilíbrio

O mecanismo de falha reside na sinalização de preços. Em um mercado livre, os preços refletem a escassez e a demanda, orientando o capital para onde a necessidade é maior. Quando o Estado intervém, essa sinalização é corrompida. O investidor, incapaz de precificar o risco ou obter um retorno justo, retira o capital, diminuindo a oferta líquida de moradias disponíveis para locação de longo prazo.

Além disso, a rigidez normativa impede que o mercado se ajuste naturalmente às mudanças demográficas e econômicas. O resultado, conforme observado pelo Banco de Espanha, é um mercado de duas velocidades: um setor protegido por tetos, que sofre com a falta de manutenção e rotatividade, e um setor livre, onde os preços são inflados pela escassez de oferta.

Implicações para o mercado

Para reguladores e formuladores de políticas, o alerta de Escrivá serve como uma advertência sobre os limites da intervenção estatal. A experiência internacional sugere que, sem um aumento concomitante na oferta — seja através de incentivos fiscais ou simplificação de licenciamento —, o controle de aluguéis torna-se um exercício de gestão de escassez, não de acesso.

Concorrentes no setor imobiliário e investidores acompanham essas declarações com cautela, uma vez que a incerteza regulatória é um dos maiores inibidores de novos projetos. O debate, que também ressoa em grandes centros urbanos brasileiros, coloca em xeque a eficácia de medidas que ignoram a lógica fundamental da oferta e demanda em prol de ganhos políticos de curto prazo.

Perspectivas futuras

O que permanece em aberto é a capacidade do governo em desenhar uma transição eficaz que não sacrifique o acesso à moradia. A observação constante dos dados de novos contratos de aluguel será o principal termômetro para avaliar se as medidas vigentes estão, de fato, cumprindo seu papel social ou se estão apenas adiando um colapso na oferta de moradias para a próxima década.

A economia espanhola, agora sob o olhar atento de sua autoridade monetária, enfrenta o desafio de equilibrar a proteção social com a viabilidade econômica do setor de habitação, um dilema que exige mais do que intervenções pontuais.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España