O varejo brasileiro entra no período eleitoral de 2026 com múltiplos de mercado em baixa e projeções de resultados majoritariamente revisadas para menos. Essa leitura do JP Morgan, divulgada antes do primeiro turno, aponta para oportunidades de investimento caso a incerteza política diminua e as taxas de juros apresentem recuo. Contudo, a análise do banco pondera que o resultado eleitoral ainda não sinaliza claramente um caminho de maior disciplina fiscal e redução do custo de capital.
“Considerando a fluidez da situação eleitoral e a relevância do fluxo de capital local para o setor, vemos o posicionamento mudando rapidamente para ações expostas ao mercado doméstico, com preços (e valuations) se movimentando de forma significativa antes do evento”, apontam os analistas do JP Morgan. Essa dinâmica, segundo o banco, altera a relação risco-retorno, comprimindo tanto os cenários de alta quanto os de baixa. Em um ambiente de juros mais baixos, nomes como Magazine Luiza e Assaí, historicamente mais alavancados, seriam escolhas naturais. No entanto, após recentes valorizações, o JP Morgan identifica uma assimetria risco-retorno mais atrativa em empresas de vestuário como Lojas Renner, C&A e Riachuelo. Seus valuations deprimidos poderiam servir como um amortecedor contra a volatilidade eleitoral.
Cenário de Consumo Sob Pressão
Independentemente do resultado das urnas, 2027 deve apresentar desafios consideráveis para o consumo no Brasil. O JP Morgan projeta que, mesmo com o desemprego em níveis baixos, a desaceleração da atividade econômica, juros elevados, alto endividamento das famílias, aumento da inadimplência e custo caro do crédito devem restringir o poder de compra e o acesso a financiamentos. A menor confiança do consumidor e a contenção nas intenções de gastos levarão as famílias a priorizar despesas essenciais, poupança e quitação de dívidas, em detrimento de gastos discricionários.
Medidas de política econômica pós-eleição, como restrições a apostas, o programa Desenrola 3.0 e a expansão do Bolsa Família, podem oferecer algum suporte pontual ao consumo ou à desalavancagem familiar. No entanto, esses efeitos são esperados como desiguais e não recorrentes. Em termos de projeções, o JP Morgan revisou as estimativas de lucro líquido para o varejo em cerca de 2% em média, e 5% no valor mediano, refletindo o cenário desafiador.
Revisões e Apostas Estratégicas
Em contrapartida, o Magazine Luiza (MGLU3) e a Alpargatas (ALPA4) aparecem com revisões positivas de expectativas. Para o Magalu, os analistas incorporam ganhos de participação de mercado esperados com a recuperação judicial da Casas Bahia (BHIA3) e a parceria com o Mercado Livre. Já a Alpargatas se beneficia da melhora nas tendências operacionais e da execução no mercado interno. Um ambiente de juros mais baixos poderia impulsionar significativamente a maioria dos nomes sob cobertura do banco.
As ações com maior sensibilidade a uma queda de juros, os chamados “betas”, incluem Magalu e Assaí. Contudo, suas recentes valorizações diminuíram a assimetria risco-retorno. O varejo de vestuário, com Lojas Renner, C&A e Riachuelo, é visto como uma aposta mais atrativa para o período eleitoral. Apesar de perspectivas de curto prazo ainda fracas e revisões negativas de lucro por ação (LPA), os valuations deprimidos e a ausência de problemas de balanço oferecem proteção.
Smart Fit e RD Saúde: Diferentes Estratégias
O banco mantém recomendação de compra para Smart Fit (SMFT3), apesar de debates sobre sua exposição ao mercado brasileiro e a um cenário de juros mais baixos. A análise de sensibilidade sugere que o valuation atual oferece margem de proteção contra riscos de queda do LPA, refletindo mais o custo de capital brasileiro do que a diversificação geográfica dos negócios. A RD Saúde (RADL3), também com recomendação de compra, é vista como uma operação de “long duration”, com potencial de capturar benefícios de juros baixos e um desconto sobre o valor justo que limita o risco de queda.
Para Alpargatas e Natura, ambas com recomendação neutra, a atratividade é limitada pelo valuation. O JP Morgan elevou suas estimativas para Alpargatas, com um novo preço-alvo para 2027, impulsionado pela melhora na execução e crescimento de receita e margens. No caso da Natura, o banco rebaixou a recomendação de compra para neutra, indicando a necessidade de um novo ciclo de turnaround.
Perguntas em Aberto para o Varejo
Apesar das análises e recomendações, o cenário para o varejo brasileiro permanece complexo. A capacidade de recuperação do consumo em 2027, mesmo com possíveis alívios na política monetária, dependerá de fatores macroeconômicos mais amplos e da confiança do consumidor. A volatilidade eleitoral, por si só, impõe um desafio adicional para a precificação e o planejamento estratégico das empresas.
O que se desenha é um mercado onde a seleção de ativos se torna crucial. A busca por resiliência e a capacidade de navegar em um ambiente de juros e incertezas políticas exigirão das companhias agilidade e estratégias bem definidas para proteger margens e manter a relevância diante de um consumidor cauteloso. A dinâmica de consolidação em alguns subsetores, como o de saúde e bem-estar, pode gerar oportunidades, mas a execução será chave.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times





