O cenário de liquidez abundante e taxas de juros próximas a zero, que definiu a última década, parece ter chegado ao fim. Segundo Eduardo Tabone, sócio e diretor do XP Private, o ambiente econômico global atravessa uma transformação estrutural, marcada por uma inflação mais persistente e um custo de capital que não deve retornar aos patamares do passado recente. A avaliação foi apresentada durante painel do LIDE sobre as relações econômicas entre Brasil e Estados Unidos.

Para o executivo, o legado das políticas fiscais expansionistas adotadas durante a pandemia de Covid-19 impôs um novo paradigma para governos e investidores. A necessidade de adaptação a esse ambiente de juros elevados não é apenas uma transição conjuntural, mas uma alteração fundamental na dinâmica de crescimento global, que exige maior seletividade e disciplina por parte dos agentes de mercado.

A mudança no equilíbrio dos juros americanos

A economia dos Estados Unidos, mesmo sob o aperto monetário conduzido pelo Federal Reserve, apresenta uma resiliência notável, mantendo o consumo aquecido e o mercado de trabalho robusto. Esse desempenho, contudo, deslocou o foco do debate financeiro. A questão central para os investidores deixou de ser a data de início do ciclo de cortes de juros e passou a ser a determinação do novo patamar de equilíbrio da taxa estrutural americana.

O comportamento recente da curva de juros dos Treasuries reflete essa incerteza, com investidores exigindo prêmios de risco mais elevados para financiar a dívida do Tesouro norte-americano. Essa reavaliação do custo de oportunidade do capital soberano americano reverbera em todo o sistema financeiro global, encarecendo o financiamento em diversas economias e alterando as expectativas de retorno para ativos de risco.

O desafio fiscal como barreira brasileira

No Brasil, a realidade de juros reais elevados é agravada por desafios domésticos específicos. Com a taxa Selic em patamares que impõem um custo elevado para famílias e empresas, a possibilidade de uma convergência para níveis mais baixos de juros depende crucialmente da percepção de solvência e previsibilidade fiscal do governo. O prêmio de risco cobrado pelo mercado reflete, em última análise, a necessidade de estabilidade nas contas públicas.

Sem avanços concretos na gestão fiscal que garantam credibilidade aos investidores, o país corre o risco de permanecer isolado em um patamar de custo de capital desproporcional. A atração de capital estrangeiro, embora favorecida por juros altos, torna-se uma faca de dois gumes, pois inibe o investimento produtivo interno e limita o potencial de expansão das empresas brasileiras em um ambiente de crédito restritivo.

Eficiência operacional como novo imperativo

A transição para o capital caro altera radicalmente os critérios de avaliação de investimentos. Em períodos de liquidez excessiva, o mercado frequentemente priorizava o crescimento acelerado, muitas vezes ignorando a rentabilidade imediata. Com a mudança de regime, a eficiência operacional, a geração de caixa recorrente e a qualidade intrínseca dos negócios voltaram a ser as métricas dominantes de sucesso.

Empresas que não conseguirem demonstrar disciplina financeira e produtividade enfrentarão dificuldades crescentes de financiamento. A recomendação para investidores, nesse contexto, passa por uma diversificação internacional mais rigorosa e pela busca de ativos com proteção inflacionária, visando mitigar os riscos de um cenário que tende a ser desafiador por um período prolongado.

Perspectivas e incertezas no horizonte

A principal interrogação que permanece é a duração e a intensidade com que esse novo regime de juros afetará o crescimento global. A capacidade das economias em se ajustarem sem rupturas dependerá da habilidade dos bancos centrais em equilibrar o controle inflacionário com a manutenção da atividade econômica, enquanto governos tentam acomodar demandas fiscais em um ambiente de dívidas elevadas.

O acompanhamento da curva de juros e dos indicadores de produtividade será essencial para entender se o mundo está de fato diante de uma nova era de estabilidade ou apenas em uma fase de transição prolongada. A adaptação a esse novo custo de capital definirá quais empresas e países conseguirão prosperar na próxima década.

O mercado financeiro observa atentamente se a disciplina fiscal será o fiel da balança para a normalização do custo do dinheiro, ou se a persistência inflacionária forçará uma revisão ainda mais profunda das teses de investimento tradicionais. A resposta a essa equação ainda está em processo de formação.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times