A compra da casa própria é um termômetro da saúde econômica de uma nação, mas um novo mapa global revela que a febre está alta em muitos lugares — especialmente no Brasil. Uma análise do site Visual Capitalist, com base em dados do Relatório de Cidades Mundiais da ONU, cruzou o preço mediano de imóveis com a renda familiar anual em mais de 180 países. O resultado é um índice simples e poderoso: quantos anos de renda integral uma família precisa para comprar uma casa.

O Brasil aparece em uma posição alarmante. Com um índice de 18,3, o país exige 18,3 anos de renda mediana para adquirir um imóvel mediano, muito acima da média mundial de 11,2 anos. A análise expõe um paradoxo: riqueza nacional não se traduz automaticamente em acesso à moradia. A questão central, que o dado ilumina, é o descompasso entre a valorização dos ativos imobiliários e a evolução dos salários da população.

O paradoxo da riqueza

No topo da lista de acessibilidade estão Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, onde são necessários apenas 3 anos de renda. O caso mais contraintuitivo, porém, é o dos Estados Unidos. Com um índice de 4,5, o mercado americano se mostra surpreendentemente mais acessível que o de outros países desenvolvidos, como Canadá (9,4), Reino Unido (8,3), Austrália (7,5) e boa parte da Europa Ocidental, incluindo Alemanha (10,7) e França (11,8).

Essa métrica, embora não inclua custos de financiamento ou impostos, foca no principal obstáculo à compra: o preço bruto do ativo. A leitura é que em muitas economias avançadas, décadas de juros baixos e a transformação de imóveis em uma classe de ativo financeiro global inflaram os preços para além da capacidade de pagamento da renda local. No outro extremo, nações como China (34,6) e Síria (86,7) mostram como bolhas especulativas ou colapsos econômicos podem tornar a moradia um sonho virtualmente inalcançável.

O abismo brasileiro

O desempenho do Brasil no ranking é um sintoma de uma doença crônica. O índice de 18,3 anos nos coloca em companhia de países como Líbano (18,3) e Venezuela (18,9), e em situação consideravelmente pior que a de vizinhos como o México (8,4). Mesmo outros mercados desafiadores na América do Sul, como Colômbia (17,5) e Peru (19,0), apresentam números próximos, sugerindo um problema estrutural na região.

A interpretação para o caso brasileiro aponta para uma combinação de fatores: estagnação da renda real para a maior parte da população, alta desigualdade e um mercado imobiliário que historicamente serve como reserva de valor para o capital, descolado da economia produtiva. O imóvel no Brasil funciona menos como um bem de consumo acessível e mais como um ativo financeiro para proteger patrimônio da inflação e da instabilidade, o que pressiona os preços para cima.

Para o profissional brasileiro, o dado quantifica uma percepção cotidiana. O desafio não está apenas em aumentar a renda, mas em repensar as dinâmicas urbanas e financeiras que governam o mercado imobiliário. Sem isso, a distância entre o salário e a chave da casa própria tende a se alargar ainda mais, com profundas consequências sociais e econômicas.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Visual Capitalist