A KPMG, uma das gigantes da consultoria e auditoria conhecidas como Big Four, está apostando em um modelo inspirado no Vale do Silício para impulsionar sua capacidade de inovação. A formação do novo grupo Client Technology & Innovation (CT&I) sinaliza um esforço deliberado para injetar agilidade e um espírito disruptivo em uma estrutura tradicionalmente marcada por processos rigorosos e uma tomada de decisão mais lenta. O objetivo é claro: operar com a velocidade de uma startup, mas com o respaldo e a expertise de uma empresa centenária.
O movimento surge em um momento crucial, com a ascensão da inteligência artificial generativa transformando o cenário de negócios. Ferramentas como o ChatGPT, lançadas há poucos anos, demonstraram o potencial disruptivo da IA e a necessidade de as grandes corporações se adaptarem rapidamente. A CT&I reunirá capacidades de inovação, dados, IA, desenvolvimento de produtos e parcerias estratégicas, que antes estavam dispersas pela firma. A ideia é que esta nova divisão funcione de maneira autônoma, separada das linhas de negócio principais de auditoria, impostos e consultoria, permitindo maior liberdade para experimentação e desenvolvimento.
Agilidade em um gigante corporativo
O desafio para a KPMG, e para suas concorrentes como Deloitte, PwC e EY, reside em conciliar a velocidade e a flexibilidade exigidas pelo mercado atual com a estrutura de parceria e as camadas hierárquicas que caracterizam essas empresas. Todd Lohr, vice-presidente e líder da CT&I, reconhece que a inovação já existia na firma, mas ocorria dentro dos limites e do ritmo do dia a dia. A nova unidade busca criar um ambiente onde a experimentação possa florescer, com mais espaço para construir novos negócios, contratar talentos especializados, assinar contratos e desenvolver tecnologia de forma mais célere, tudo isso sem desconsiderar os marcos de risco e governança da KPMG.
Essa iniciativa reflete uma tendência maior na indústria de consultoria. A velocidade de desenvolvimento da IA tem levado muitos profissionais seniores a deixar as grandes consultorias em busca de ambientes mais dinâmicos em startups. Ao mesmo tempo, novas empresas de consultoria baseadas em IA surgem, prometendo entregar trabalhos de estratégia de forma mais rápida e barata. A CT&I é a resposta da KPMG a essa nova dinâmica competitiva, buscando alavancar suas vantagens intrínsecas – como acesso a clientes, conhecimento setorial e expertise multidisciplinar – com a agilidade e o espírito empreendedor das startups.
Incubando talentos e negócios
A CT&I não se limitará ao desenvolvimento de produtos e soluções para clientes; ela também servirá como um viveiro de talentos. A KPMG planeja rotacionar profissionais promissores da firma para a nova divisão, proporcionando-lhes uma experiência de “estilo fundador”. Ao retornar às áreas de negócio tradicionais, esses profissionais trarão consigo as habilidades e a mentalidade necessárias para navegar na era da IA. Essa abordagem visa não apenas acelerar a inovação externa, mas também fortalecer a capacidade interna da KPMG em lidar com as transformações tecnológicas.
As viagens regulares à região do Vale do Silício, onde a liderança da KPMG tem se reunido com empresas de tecnologia e startups, reforçam o compromisso da firma em absorver e adaptar novas culturas e modelos de trabalho. A intenção é criar uma cultura interna que suporte a agilidade e a rápida execução, elementos essenciais para se manter relevante em um mercado em constante evolução. A iniciativa da KPMG espelha movimentos de outras Big Four, como a Deloitte, que reestruturou títulos de cargos, e a EY, que centralizou sua estratégia de IA, indicando uma corrida da indústria por adaptação e modernização.
Implicações e o futuro da consultoria
O movimento da KPMG sugere uma visão de futuro onde os modelos de consultoria tradicionais coexistirão com ofertas mais ágeis e baseadas em produtos. A necessidade de implementar soluções de IA, por exemplo, tende a aumentar a demanda por serviços de consultoria, mas o formato desses serviços pode mudar. A consultoria tradicional, focada em auxiliar clientes a navegar por mudanças complexas, continuará relevante, mas novas oportunidades surgirão em áreas como serviços gerenciados e ofertas baseadas em assinatura. A CT&I busca posicionar a KPMG para capturar essas novas fontes de valor, combinando sua solidez com a agilidade de um player de tecnologia.
A criação da CT&I é uma aposta estratégica da KPMG para não apenas responder às mudanças do mercado, mas também para liderar a transformação dentro de si mesma. Ao abraçar a mentalidade do Vale do Silício, a firma busca garantir que sua vasta experiência e base de clientes possam ser alavancadas de forma mais dinâmica e inovadora. O sucesso dessa empreitada dependerá da capacidade da KPMG de sustentar essa agilidade em meio à sua estrutura corporativa, provando que é possível ser uma gigante centenária e, ao mesmo tempo, ágil como uma startup.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Business Insider





